Barriga solidária aos 65 anos: tia gera o filho da sobrinha com síndrome rara
Após autorização da Justiça por superar o limite de idade, gravidez de Maria permitiu o nascimento de Samuel e realizou o sonho de Mary Ellen
Arquivo pessoal
Mary Ellen Marques, diagnosticada com a síndrome de Rokitansky, realizou seu sonho de ser mãe com a ajuda de sua tia Maria, que se ofereceu para ser barriga solidária, após a obtenção de autorização judicial devido à sua idade avançada.
A condição de Mary Ellen impede a gestação, mas com o apoio familiar e a fertilização in vitro, o casal conseguiu ter um filho, Samuel, que nasceu após uma gestação acompanhada de perto pela família, apesar de complicações que anteciparam o parto.
Após o nascimento, a relação entre Mary Ellen e sua tia se fortaleceu, com Maria assumindo um papel de avó, e a história gerou interesse em outras mulheres sobre a barriga solidária, levando Mary Ellen a ajudar outras interessadas no processo de reprodução assistida.
São Paulo - O sonho de ser mãe levou Mary Ellen Marques a enfrentar uma série de desafios. Diagnosticada aos 19 anos com a síndrome de Rokitansky, uma condição rara que provoca a ausência ou o desenvolvimento incompleto do útero, ela sabia que não poderia gestar um filho. A possibilidade de realizar o desejo veio por meio da barriga solidária, mas a solução surgiu de onde menos esperava: sua tia Maria Ambrozia, que tinha 65 anos na época, se ofereceu para carregar o bebê.
A gestação só foi possível após a família conseguir autorização judicial, já que a idade da tia ultrapassava o limite de 50 anos previsto nas normas do Conselho Federal de Medicina (CFM) para a cessão temporária do útero.
Com o aval da Justiça e o acompanhamento médico, Maria passou pela fertilização com embriões formados a partir do material genético de Mary Ellen e do marido. O resultado foi o nascimento de Samuel, filho do casal.
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Realização de um sonho
A história ganhou repercussão nas redes sociais pela idade da mulher que gestou o bebê e pela relação afetiva entre as duas. Para Mary Ellen, a experiência representa a realização de um sonho que, durante anos, pareceu distante.
"É uma felicidade tremenda, uma felicidade que não tem explicação, porque eu já tinha perdido as minhas esperanças", conta sobre o momento em que soube que a tia aceitaria participar do procedimento.
A condição congênita de Mary Ellen afeta o desenvolvimento do sistema reprodutor feminino e, em alguns casos, faz com que a mulher nasça sem útero, embora tenha ovários e características sexuais femininas habituais.
Mesmo diante do diagnóstico, ela nunca abandonou o sonho de ter filhos. Antes de conhecer o atual marido, chegou a considerar a adoção, mas não encontrou apoio nos relacionamentos anteriores.
Quando o casal decidiu construir uma família, começou a procurar alternativas. Os dois realizaram tratamento de reprodução assistida e conseguiram formar dez embriões, que foram congelados enquanto procuravam uma mulher disposta a realizar a gestação.
O principal obstáculo era encontrar alguém de confiança que pudesse passar pelo procedimento. A mãe de Mary Ellen havia feito uma cirurgia, e a sogra era falecida. Sem uma pessoa disponível na família ou entre as amigas, o casal chegou a pensar em desistir.
A tia Maria, esposa de um irmão do pai de Mary Ellen, já havia se oferecido para gestar o bebê. A família, porém, considerou inicialmente que a idade dela impediria a realização do procedimento.
Mary Ellen relata que a mudança aconteceu cerca de seis meses depois, quando ela recebeu pelas redes sociais o vídeo de outra mulher que havia conseguido autorização judicial para que uma tia de 62 anos fosse sua barriga solidária.
Ela procurou a família retratada na gravação, conseguiu o contato da advogada responsável pelo processo e decidiu seguir o mesmo caminho. A informação chegou à prima, que conversou com Maria. A resposta veio rapidamente: "Pode falar para ela que eu vou. Agora chegou a minha hora. Se essa senhora conseguiu, eu também vou conseguir", lembra Mary Ellen sobre a decisão da tia.
Idade de Maria exigiu uma análise específica
O procedimento de cessão temporária do útero, popularmente conhecida como barriga solidária, permite que uma mulher gestante carregue um embrião formado com material genético dos pais ou de doadores, sem que isso implique transferência da maternidade.
Pelas regras médicas, a cedente temporária do útero deve ter, em princípio, parentesco consanguíneo de até quarto grau com um dos parceiros. A norma também estabelece limite de idade de 50 anos, com possibilidade de exceção mediante avaliação e autorização do Conselho Regional de Medicina (CRM).
A idade de Maria exigiu uma análise específica. Segundo a sobrinha, a tia tinha 65 anos biologicamente, embora os documentos indicassem 63, pois havia sido registrada dois anos depois do nascimento.
Antes de recorrer à Justiça, Maria passou por uma série de exames para avaliar as condições de saúde. A família precisava demonstrar que ela tinha condições clínicas de enfrentar uma gestação, mesmo após nove anos na menopausa.
A avaliação não identificou problemas cardíacos ou alterações uterinas que impedissem o procedimento. Maria também tinha histórico de três gestações anteriores, todas com partos normais. Com os exames e a documentação, a família conseguiu a autorização para seguir com o tratamento.
Mary Ellen procurou profissionais de Goiânia que já haviam acompanhado casos semelhantes, para conhecer melhor as etapas e evitar dificuldades durante o processo.
Gestação teve acompanhamento e parto prematuro
Durante os meses de gravidez, Mary Ellen acompanhou de perto a tia e ofereceu suporte diário. A prima Kelly, que é enfermeira, também teve participação importante nos cuidados, ajudando a monitorar a pressão arterial, a glicemia e os horários das medicações.
Apesar da expectativa positiva, o casal conviveu com o medo de que alguma complicação impedisse a chegada do bebê. Um dos momentos mais marcantes para Mary Ellen aconteceu no chá revelação, quando descobriu que esperava um menino.
A escolha do nome Samuel tinha um significado especial para o casal. Ambos são evangélicos e, antes mesmo de se conhecerem, afirmavam ter recebido, em suas experiências religiosas, a promessa de que teriam um filho com esse nome.
Quando eu descobri que era o menino, eu tive certeza e falei: 'Deus, é o Senhor nas nossas vidas, sempre foi, e o Senhor está confirmando isso hoje'.
Mary Ellen Marques
O nascimento, entretanto, aconteceu antes do previsto. Maria apresentou um quadro de hipertensão no dia do parto, que precisou ser antecipado em aproximadamente 15 dias.
A família chegou ao hospital apreensiva, pois havia a possibilidade de Samuel precisar de internação em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal por causa da prematuridade.
O momento em que ouviu o primeiro choro do filho ficou marcado na memória de Mary Ellen. Depois de receber o bebê nos braços, ela fez questão de levá-lo até a tia, para que Maria também estivesse entre as primeiras pessoas a vê-lo.
"Quando eu vi ele sendo tirado ali de dentro da tia, que eu escutei o primeiro choro dele, eu desabei. Eu o peguei nos braços e corri para mostrá-lo para a tia", conta.
Tia Maria mantém vínculo de avó com Samuel
Depois do nascimento, a família precisou lidar com outra questão: a adaptação emocional de Maria após a gestação. Segundo Mary Ellen, havia preocupação com a possibilidade de a tia desenvolver depressão pós-parto ou apresentar dificuldades para estabelecer os limites afetivos entre a gestação e a maternidade.
Porém, ela afirma que Maria sempre compreendeu que estava carregando o filho da sobrinha e que sua participação tinha como objetivo realizar o sonho da família. Hoje, a relação entre as duas continua próxima.
Mary Ellen considera a tia uma segunda mãe e faz questão de manter sua participação na criação de Samuel. As famílias se encontram pelo menos uma vez por semana, e Maria acompanha o crescimento do menino como avó.
"Ela tem um amor por ele, mas como avó. Sabe, nitidamente, claramente, não é como mãe, mas é um amor imenso", explica.
A repercussão da história também abriu espaço para que outras mulheres conhecessem a possibilidade da barriga solidária. Mary conta que recebeu mensagens de pessoas interessadas no procedimento e chegou a ajudar diretamente cinco mulheres, que entraram em contato para buscar informações sobre o tratamento.
A experiência também fez com que ela refletisse sobre a importância de compartilhar histórias de reprodução assistida. Foi justamente por meio de um relato publicado nas redes sociais que descobriu a possibilidade de realizar o sonho da maternidade e, posteriormente, encontrou uma referência para conseguir a autorização envolvendo a idade da tia.
Hoje, ao olhar para Samuel, Mary Ellen resume sua trajetória com gratidão. Ela destaca o apoio do marido, dos pais, da tia e dos primos durante todo o processo.
Tem dia que eu olho para o meu filho e eu choro de gratidão, de felicidade. Tem dia que parece que a ficha ainda não caiu, porque era um sonho que parecia ser tão distante. Hoje, não imagino a minha vida sem ele.
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