Gravidez depois dos 60 e da menopausa é possível? O que diz a ciência
Reprodução assistida permite que mulheres engravidem após a menopausa, inclusive depois dos 60 anos, mas idade aumenta os riscos de complicações
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Engravidar após os 60 anos é biologicamente viável, especialmente com técnicas de reprodução assistida como a fertilização in vitro, mas traz riscos significativos à saúde da mulher e do bebê.
Estudos documentaram gestações em mulheres de 63 e 67 anos, mas o envelhecimento aumenta a probabilidade de complicações como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares durante a gravidez.
Mulheres acima de 50 anos devem passar por avaliações médicas rigorosas antes de tentativas de gravidez, e no Brasil, a idade máxima para reprodução assistida é de 50 anos, com exceções avaliadas caso a caso.
São Paulo - A menopausa está cercada de tabus, entre eles a ideia de que a alteração hormonal impediria a mulher de engravidar. Afinal, a menopausa interrompe a ovulação natural, mas não necessariamente elimina a capacidade do útero de sustentar uma gravidez. Mais do que isso, engravidar depois dos 50 e até dos 60 anos é biologicamente possível. A questão é que envolve riscos importantes para a saúde da mulher e do bebê.
Estudos científicos da PubMed Central registram casos de gestação aos 63 e 67 anos, viabilizados por técnicas de reprodução assistida, principalmente a fertilização in vitro (FIV) com óvulos doados.
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Com o auxílio da medicina reprodutiva, mulheres que já não produzem óvulos podem receber embriões formados a partir de óvulos de doadoras. Entretanto, isso não significa que o organismo esteja preparado para enfrentar uma gestação nessa idade. O envelhecimento aumenta a probabilidade de doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes, condições que podem tornar a gravidez mais complexa.
Segundo a ginecologista Rivia Mara Lamaita, presidente da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Assistida da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a medicina consegue superar algumas barreiras da fertilidade, mas não interrompe o envelhecimento do organismo.
Conseguir uma gravidez não é o mesmo que garantir uma gestação segura.
Rivia Mara Lamaita, ginecologista
Como engravidar depois da menopausa?
Para mulheres que desejem engravidar a partir da menopausa ou com mais idade, a principal alternativa é a fertilização in vitro com óvulos doados. Nesse procedimento, os óvulos de uma doadora são fecundados em laboratório com espermatozoides. Depois, o embrião é transferido para o útero da mulher que deseja engravidar.
Essa técnica permite contornar parte das dificuldades relacionadas ao envelhecimento dos óvulos, já que a idade da doadora influencia a qualidade dos gametas utilizados. É preciso diferenciar dois fatores: a idade dos óvulos e a idade da mulher que vai gestar.
Mesmo quando são utilizados óvulos de mulheres jovens, os riscos associados ao envelhecimento do organismo da gestante permanecem. Isso acontece porque a gravidez exige adaptações importantes do coração, dos vasos sanguíneos, dos rins e do metabolismo.
O que dizem os estudos sobre gravidez depois dos 60?
Pesquisas científicas já documentaram gestações em mulheres com mais de 60 anos, embora ainda existam poucas evidências sobre os resultados nessa faixa etária.
Um dos casos foi publicado em 2020 no artigo "Pregnancy and Lactation in a 67-Year-Old Elderly Gravida following Donor Oocyte In Vitro Fertilization". Pesquisadores ligados ao Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, relataram a gestação de uma mulher de 67 anos após fertilização in vitro com óvulo doado.
A paciente tinha hipertensão crônica, obesidade e alterações nos níveis de colesterol. Durante a gravidez, a equipe médica também acompanhou sua função cardíaca. O parto ocorreu por cesariana, com 36 semanas e um dia de gestação.
Outro relato, publicado na revista Fertility and Sterility, descreveu a gravidez de uma mulher de 63 anos que já havia passado pela menopausa. Ela também recorreu à fertilização in vitro com óvulos doados. Durante a gestação, apresentou diabetes gestacional e hipertensão leve. O bebê nasceu por cesariana na 38ª semana.
Os dois casos demonstram que uma gravidez pode acontecer depois dos 60 anos. No entanto, relatos individuais não permitem determinar a frequência de sucesso nem estabelecer todos os riscos envolvidos.
Quais são os riscos de engravidar depois dos 60 anos?
A idade avançada aumenta a probabilidade de complicações durante a gravidez e o parto. Entre as principais estão:
- Hipertensão gestacional: aumento da pressão arterial durante a gravidez;
- Pré-eclâmpsia: complicação caracterizada pelo aumento da pressão arterial, que pode comprometer órgãos maternos e a saúde do bebê.;
- Diabetes gestacional: alteração dos níveis de glicose durante a gravidez;
- Problemas cardiovasculares: sobrecarga do coração e dos vasos sanguíneos;
- Trombose: formação de coágulos que podem provocar complicações graves;
- Prematuridade: nascimento antes de 37 semanas de gestação;
- Complicações no parto: maior possibilidade de necessidade de cesariana e de cuidados intensivos.
De acordo com Rivia Mara Lamaita, a gravidez provoca mudanças importantes no funcionamento do organismo. O coração precisa trabalhar mais, o volume de sangue circulante aumenta e o metabolismo passa por adaptações para atender às necessidades do bebê.
Com o envelhecimento, essas adaptações podem se tornar mais difíceis. Após os 50 anos, e particularmente depois dos 60, existe maior probabilidade de doenças cardiovasculares.
A especialista alerta que algumas consequências podem permanecer depois do parto. Mulheres que desenvolvem pré-eclâmpsia, por exemplo, apresentam maior risco futuro de hipertensão e doenças cardiovasculares. Já o diabetes gestacional aumenta a probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2.
Quais cuidados médicos são necessários?
Mulheres 50+ que consideram uma gravidez precisam passar por uma avaliação médica antes de iniciar qualquer tratamento de reprodução assistida.O acompanhamento deve envolver especialistas em reprodução humana e obstetrícia de alto risco.
Dependendo das condições clínicas, também podem ser necessários cardiologistas e endocrinologistas. Entre os principais pontos avaliados estão:
- Pressão arterial e saúde cardiovascular;
- Funcionamento dos rins;
- Níveis de glicose e risco de diabetes;
- Estado nutricional;
- Uso de medicamentos;
- Histórico de doenças e condições clínicas preexistentes.
Se a gravidez acontecer, o pré-natal deve ser individualizado, com monitoramento da pressão arterial, do metabolismo da glicose e do desenvolvimento fetal. A transferência de um único embrião durante a FIV também é uma estratégia importante para evitar gestações múltiplas, que aumentam os riscos para a mulher e para os bebês.
Vale destacar que mesmo com todos esses cuidados, não é possível eliminar completamente as complicações.
Existe limite de idade para engravidar no Brasil?
No Brasil, a Resolução nº 2.320/2022 do Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece 50 anos como idade máxima para candidatas à gestação por técnicas de reprodução assistida.
A norma admite exceções, desde que sejam fundamentadas em critérios técnicos e científicos, com avaliação médica e esclarecimento dos riscos envolvidos. A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) também apresenta recomendações restritivas para tratamentos em idades avançadas.
Em documento publicado em 2016, a entidade recomendou desestimular a oferta de óvulos ou embriões doados a mulheres com mais de 55 anos, mesmo quando não apresentam problemas de saúde conhecidos.
A orientação considera a falta de dados suficientes sobre a segurança materna e fetal, além dos riscos obstétricos e das condições necessárias para a criação da criança.
Barriga solidária é possível após os 60 anos?
A gestação de substituição, popularmente conhecida como barriga solidária, pode ser considerada quando existe uma condição médica que impede ou torna especialmente arriscado que a mulher leve a gravidez adiante. Nesse caso, uma mulher fica responsável por gestar o embrião, enquanto os futuros pais participam do projeto parental.
A especialista da Febrasgo explica que a alternativa não elimina a necessidade de avaliação médica. É preciso considerar tanto as condições de saúde da mulher que vai gestar quanto as dos futuros pais, respeitando as regras brasileiras para a reprodução assistida.
Segundo a ginecologista Rivia Mara Lamaita, a decisão de buscar uma gravidez em idade avançada precisa considerar a possibilidade de obter um resultado positivo no tratamento e também a segurança da mulher e da criança.
A medicina pode ampliar as possibilidades reprodutivas, mas não consegue eliminar os efeitos do envelhecimento sobre o organismo. O limite mais importante deve ser a segurança da mulher e do futuro bebê.
Por isso, especialmente depois dos 60 anos, a avaliação individualizada e o aconselhamento médico são fundamentais antes de qualquer tentativa de gestação.
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