Alterações genéticas e câncer hereditário: o que diz novo estudo brasileiro
Pesquisa em oncogenética analisou 412 pacientes e revela dados sobre câncer de mama e próstata relacionados aos genes BRCA
Por Bianca Bibiano
22/09/2026 | 17h21Adobe Stock
Um estudo em São Paulo analisou 412 pacientes com variantes nos genes BRCA1 e BRCA2, revelando que 62,4% deles foram diagnosticados com câncer, com o câncer de mama sendo o mais comum, representando 66,7% dos casos.
A pesquisa destacou diferenças significativas na idade de diagnóstico entre os portadores dos dois genes, com BRCA1 apresentando uma mediana de 39 anos e BRCA2 de 47 anos para o primeiro câncer.
Os especialistas enfatizam a importância de estratégias de vigilância personalizadas e aconselhamento genético contínuo, além da necessidade de mais pesquisas sobre câncer hereditário no Brasil para melhor compreender os riscos associados às variantes genéticas.
São Paulo - Um estudo realizado a partir de dados de pacientes acompanhados em serviços de oncogenética da capital paulista amplia o conhecimento sobre a relação entre alterações hereditárias nos genes BRCA1 e BRCA2 e o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.
A pesquisa analisou 412 pessoas adultas portadoras de variantes patogênicas ou provavelmente patogênicas nesses genes, acompanhadas no Hospital Sírio-Libanês e na BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, entre outubro de 2008 e janeiro de 2024.
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Os resultados mostram diferenças relevantes entre os dois genes. Dos 412 participantes, 257 (62,4%) tinham registro de pelo menos um diagnóstico de câncer, totalizando 336 tumores primários. Entre os pacientes que desenvolveram câncer, aproximadamente um quarto (24,9%) apresentou dois ou mais tumores primários ao longo do acompanhamento.
O câncer de mama foi o tumor mais frequente na população estudada, representando 66,7% dos 336 tumores registrados, seguido pelos câncer de ovário e trompa de Falópio, que corresponderam a 14,9%. Também foram identificados casos de câncer de próstata, pulmão, pâncreas, tireoide, melanoma, entre outros.
Idade de surgimento de tumor varia
Um dos principais achados foi a diferença na idade de aparecimento dos tumores. Entre os portadores de BRCA1, a mediana de idade no diagnóstico do primeiro câncer foi de 39 anos, enquanto entre os portadores de BRCA2 foi de 47 anos. A diferença também foi observada no segundo câncer primário: 43 anos para BRCA1 e 62 anos para BRCA2.
Para o coordenador geral dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP, Gustavo Cardoso Guimarães, os resultados reforçam que a identificação de uma alteração genética deve ser acompanhada por uma estratégia individualizada de cuidado. "O acompanhamento precisa considerar o gene envolvido, o sexo, a idade, o histórico familiar e os tumores que já ocorreram", explica.
BRCA não se restringe a câncer de mama
O estudo também evidencia que o impacto das alterações em BRCA não se restringe ao câncer de mama feminino. Entre os homens portadores de variantes em BRCA2, câncer de mama masculino e câncer de próstata foram os tumores mais frequentes, cada um representando 30,4% dos tumores registrados neste grupo. Também foram observados casos de câncer de pulmão e pâncreas.
É importante ampliar a percepção de que câncer hereditário não é sinônimo de câncer de mama ou de uma condição exclusivamente feminina. Especialmente no BRCA2, os dados mostram a relevância de considerar também tumores como próstata e mama masculina."
Gustavo Cardoso Guimarães, médico
Ele acrescenta que os homens que carregam essas variantes também precisam receber orientação adequada e acompanhamento de acordo com seu perfil de risco.
Variantes recorrentes podem direcionar investigação
Outro aspecto relevante da pesquisa foi a identificação de variantes genéticas recorrentes. Entre os portadores de BRCA1 que tinham histórico de câncer, duas variantes — c.5266dupC e c.3331_3334del — corresponderam, juntas, a 32,1% dos registros de variantes. No BRCA2, por outro lado, foi observada uma distribuição mais heterogênea, sem uma única variante predominante.
Segundo o estudo, esse padrão pode ter implicações para estratégias de investigação genética em determinados contextos, especialmente em regiões onde o acesso ao sequenciamento genético abrangente ainda é desigual. Os autores, entretanto, ressaltam que estratégias baseadas em variantes recorrentes não devem substituir o sequenciamento amplo quando este for clinicamente indicado.
“A genética do câncer exige aconselhamento especializado e, quando indicado, testes mais abrangentes, porque uma alteração que não esteja entre as variantes mais frequentes não significa que o paciente esteja fora de risco”, afirma o médico.
Diagnóstico genético como parte da estratégia de cuidado
A identificação de variantes patogênicas em BRCA1 e BRCA2 pode ter impacto não apenas na avaliação do risco de desenvolvimento de novos tumores, mas também na definição de estratégias de acompanhamento e prevenção.
O estudo destaca a necessidade de uma abordagem longitudinal, especialmente porque quase um quarto dos pacientes que desenvolveram câncer apresentou mais de um tumor primário, além de aconselhamento genético contínuo.
Para mulheres portadoras de variantes em BRCA1 ou BRCA2, por exemplo, o diagnóstico precoce de alterações de risco permite estabelecer protocolos específicos de acompanhamento das mamas. Já no caso do BRCA1, possibilita discutir individualmente estratégias de redução do risco de tumores ginecológicos. Para homens com BRCA2, o acompanhamento deve considerar especialmente o risco de câncer de próstata e de mama masculina.
“A principal mensagem é que o diagnóstico genético precisa estar conectado a uma linha de cuidado. Não basta descobrir a mutação: é necessário transformar essa informação em uma estratégia de acompanhamento, prevenção e, quando o câncer já está presente, em uma avaliação terapêutica individualizada”, conclui Guimarães.
O trabalho reforça, ainda, a importância de ampliar a produção de dados brasileiros sobre câncer hereditário. Por ter sido realizado em dois centros privados de referência em São Paulo, os autores destacam que os resultados não podem ser automaticamente extrapolados para toda a população brasileira.
Novas pesquisas, incorporando dados clínicos, genômicos, de ancestralidade e de acompanhamento, poderão contribuir para estimar com maior precisão os riscos associados às diferentes variantes encontradas no País, apontam os pesquisadores.
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