Por que a Justiça vetou a 'Bolsa Mounjaro' em cidade do interior paulista?
A decisão liminar atende a um pedido da Eli Lilly, que alega violação de patentes e normas da Anvisa na manipulação do medicamento
Por Estadão Conteúdo
05/11/2026 | 18h10Freepik
A Justiça de São Paulo suspendeu o programa de tratamento da obesidade em Urupês, conhecido como 'Bolsa Mounjaro', a pedido da farmacêutica Eli Lilly, que alegou violação de patentes e normas da Anvisa ao utilizar tirzepatida manipulada na rede pública de saúde.
O programa atendia cerca de 400 pacientes com custos reduzidos, mas a Eli Lilly argumentou que a manipulação em larga escala do medicamento já industrializado é ilegal, enquanto a prefeitura defende a legalidade da iniciativa com base em prescrições médicas individuais.
A decisão judicial permite que a prefeitura adquira o medicamento original aprovado pela Anvisa, e a administração municipal planeja recorrer da medida, destacando os riscos à saúde dos pacientes e a possibilidade de manter o programa com recursos próprios.
São Paulo - A Justiça do Estado de São Paulo determinou a suspensão imediata do programa municipal de tratamento da obesidade em Urupês (SP), popularmente conhecido como "Bolsa Mounjaro". A decisão liminar atende a um pedido da farmacêutica Eli Lilly do Brasil Ltda. e paralisa a aplicação de tirzepatida manipulada na rede pública de saúde da cidade.
A opção pela manipulação foi adotada pela prefeitura como uma alternativa de menor custo para atender cerca de 400 pacientes com obesidade e comorbidades. Enquanto a caneta da empresa Eli Lilly, o Mounjaro, chegava a custar cerca de R$ 1,5 mil, os frascos manipulados saíam por aproximadamente R$ 900.
Leia também
A farmacêutica detém a patente e a exclusividade de comercialização do produto de referência no país até 2036. A ação apontou que a prefeitura estaria adquirindo uma versão manipulada de forma padronizada, o que violaria as normas da Anvisa, que vedam a produção em larga escala de medicamentos que já são industrializados e estão disponíveis no mercado.
A defesa da prefeitura de Urupês defende a legalidade da iniciativa e argumenta que o programa cumpre as normas vigentes. Segundo a administração, cada paciente recebia atendimento específico amparado por receita médica individual e frascos personalizados, sem estoque ou produção industrial em massa.
Ao negar um recurso da prefeitura para reverter a medida, a Justiça esclareceu que a suspensão recai estritamente sobre a versão manipulada fornecida pelo município. O entendimento judicial destacou que a administração municipal continua livre para adquirir o medicamento industrializado original aprovado pela Anvisa, inclusive por meio de licitação na qual a própria Eli Lilly pode participar.
A suspensão é válida sob pena de multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento.
Programa viabilizado por emenda de Tiririca
O programa em Urupês foi viabilizado por meio de recursos de uma emenda parlamentar destinada pelo deputado federal Tiririca. Foram 261 empenhos que totalizam cerca de R$ 306 mil para a aquisição de frascos manipulados do princípio ativo, com custos unitários em torno de R$ 900. Até o final de outubro, R$ 268.290 já haviam sido efetivamente pagos, de acordo com dados do Portal da Transparência.
Em nota, a prefeitura de Urupês defende que a interrupção abrupta do tratamento pode representar riscos à continuidade da assistência e à saúde dos pacientes, e que não foram identificadas reações adversas entre aqueles atendidos pelo programa, mas sim resultados satisfatórios.
"Diante da decisão proferida, aguarda a manifestação do Ministério Público, já formalmente intimado, e solicita a reconsideração da medida. Caso a decisão seja mantida, serão adotadas as medidas recursais cabíveis", informa a administração municipal, que também afirma prever a manutenção do programa com recursos próprios, caso necessário.
Manipulação em circunstâncias restritas
A Eli Lilly diz que tanto a Anvisa como diversos tribunais reiteram o entendimento de que a manipulação é permitida "apenas em circunstâncias restritas e específicas, para atender a necessidades médicas individualizadas de um paciente, mediante prescrição de um profissional qualificado".
"O modelo adotado em Urupês, de dispensação padronizada de tirzepatida manipulada em larga escala no âmbito de um programa público instituído por decreto municipal, é incompatível com esse regime e expõe os pacientes a riscos graves à saúde", diz a empresa.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora
