CONFIRA

Veja como o uso descuidado de IA aumenta o perigo do mundo virtual

Robôs coordenando ataques em massa, agentes se espalhando em SmartTV e sites gerados sem proteção preocupam especialistas da cibersegurança

Felipe Cavalheiro

Por Felipe Cavalheiro

29/10/2026 | 17h32

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Usar um modelo errado de IA pode por em risco suas informações - Adobe Stock
Usar um modelo errado de IA pode por em risco suas informações
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A Inteligência Artificial (IA) está se tornando o novo 'elo fraco' na cibersegurança, substituindo humanos em várias tarefas, o que pode gerar brechas perigosas. Especialistas alertam que os golpes digitais criados por IA se tornaram comuns e que muitos incidentes não são reportados, indicando um aumento significativo de problemas de segurança.

Estudos revelam que modelos de IA sem censura podem atender a solicitações maliciosas, e a prática de usar ferramentas de IA sem supervisão, conhecida como 'Shadow AI', representa um risco tanto para empresas quanto para a vida digital dos usuários. A vulnerabilidade é exacerbada por dispositivos piratas, como TVs Box, que estão infectados com vírus e podem ser facilmente explorados.

A análise de sites gerados por IA revelou a exposição de senhas e dados pessoais, com 96% dos desenvolvedores expressando desconfiança em relação ao código gerado. Especialistas recomendam que a segurança seja considerada antes da implementação de novas tecnologias, uma vez que a inovação muitas vezes precede a preocupação com a proteção dos dados.

São Paulo -  Doze anos depois do primeiro Mês da Conscientização em Segurança Cibernética – criado em outubro de 2004 para alertar sobre perigos do mundo digital – a inteligência artificial começa a substituir o humano como “elo fraco” da cibersegurança.

Várias tarefas confiadas a agentes de IA, desde a criação de sites até o treinamento de outros agentes, dependem de supervisão constante; e podem deixar brechas perigosas. Um agente de IA é um sistema computacional autônomo projetado para alcançar um objetivo específico sem depender de comandos a cada etapa, como é feito com a IA "simples"'.

O agente percebe o ambiente por meio de dados, usa raciocínio lógico para planejar ações, interage com ferramentas digitais — como APIs, navegadores e bancos de dados — e avalia os próprios resultados para corrigir a rota até concluir a tarefa.

Notícias de golpes digitais criados por IA se tornaram comuns em 2026. O fundador da Ventura Enterprise Risk Management e vice-presidente de Cibersegurança da Nava, Domingo Montanaro, investiga essas brechas do mundo digital há mais de 25 anos e avalia que essa é a ponta do iceberg. A Nava é uma empresa de serviços e consultoria de TI e a Ventura atua em cibersegurança e investiga crimes digitais.

Muitos incidentes não são noticiados. Estão acontecendo muito mais problemas do que aqueles que chegam à imprensa. 
Domingo Montanaro, fundador da Ventura e VP de Cibersegurança da Nava

Veja, a seguir, quais atividades da IA merecem atenção para não se expor à invasores. 

Nem toda IA respeita sua privacidade

Ao escrever prompts que envolvam atividades ilegais ou antiéticas, os grandes modelos de IA, geralmente, exibem avisos prontos e se recusam a colaborar. Essas travas não estão presentes em todas as aplicações de inteligência artificial. 

Foto do Domingo Monataro
Domingo Montanaro, fundador da Ventura e vice-presidente de Cibersegurança da Nava - Divulgação

Em repositórios gratuitos da internet, qualquer pessoa pode baixar modelos que passaram por uma técnica chamada “abliteration”, que desliga esses bloqueios, permitindo que  atendam, em média, três a cada quatro das solicitações maliciosas. 

Um estudo publicado no arXiv, em setembro de 2026, mapeou 3.471 dessas IAs sem censura na plataforma Hugging Face.   

Mesmo fora dessas plataformas, diversos serviços gratuítos – como os que resumem pdf ou editam imagem – guardam os dados dos documentos fornecidos em troca. 

Dentro do mercado corporativo, o uso dessas ferramentas sem que o usuário notifique a empresa é chamada de “Shadow AI”. Montanaro explica que, principalmente quando alguém usa o mesmo dispositivo para vida pessoal e profissional, a prática é duplamente perigosa.

As pessoas costumam enxergar essa questão como se fosse um problema só da empresa, mas coloca também em risco a sua vida digital, os seus ativos pessoais e da sua família”
Domingo Montanaro

IA não precisa de um data center, basta uma 'gatonet'

A bigtech americana Anthropic, dona do Claude, fez uma série de testes este mês para entender se modelos de inteligência artificial conseguiriam rodar fora dos grandes data centers. 

Em um teste de invasão realizado pela empresa, um modelo conseguiu invadir e se replicar em oito TVs box com a porta de segurança aberta e sem senha -- falha típica de aparelhos piratas. 

O Brasil possui um terreno fértil para essas IAs. Em agosto de 2025, a Anatel emitiu um alerta nacional sobre o vírus BadBox 2.0, revelando que mais de 1,5 milhão de aparelhos de TVs box piratas no Brasil estavam infectados. Estes dispositivos não homologados pela agência, chamados de “gatonet”, possuem justamente as vulnerabilidades testadas pela Anthropic.

“Você tem um cenário no qual uma IA invasora pode alcançar outros dispositivos a partir da conexão Wi-Fi com a internet. E quando você tem isso rodando tanto no seu telefone quanto na TV, é difícil rastrear a origem”, afirma Montanaro. 

Nem todo site foi pensado por humanos

Até pouco tempo, se alguém queria criar um site, precisava de muito estudo em programação; ou contratar alguém com esse conhecimento. Agora, muitas IAs já criam totalmente o código de uma página, no processo chamado “vibecooding”. 

Os sites, apesar de funcionarem corretamente e auxiliarem o trabalho de microempreendedores, não passam pelas mesmas etapas de segurança no desenvolvimento. Este ano a empresa de cibersegurança Escape.tech analisou mais de 5.600 sites e aplicativos criados desta forma, e descobriu 400 senhas expostas e 175 vazamentos diretos de dados pessoais de usuários cadastrados. 

Os próprios desenvolvedores admitiram esses riscos na pesquisa "2026 State of Code Developer Survey”. Segundo o estudo, 96% dos profissionais ouvidos não confiavam totalmente no código gerado quanto utilizavam IA, e mais da metade teme expor informações dos clientes. 

Em seu trabalho, Montanaro já atendeu vários incidentes causados por sites gerados na IA. Ele admite que, agora, “a vida do invasor está mais fácil”. Ainda assim, o especialista é otimista: entende que basta às pessoas pensarem primeiro no risco de uma possível novidade antes de aplicá-la. 

O ser humano é acostumado a lançar primeiro, inovar, começar a faturar; para depois pensar em segurança"
Domingo Montanaro,

* Estagiário sob supervisão de Claudio Marques

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