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Dia da Infância: Ser criança era melhor antigamente? Especialistas opinam

Rovena Rosa/Agência Brasil

Para muitos, a ideia de infância antes dos anos 2000 é recheada de memórias de brincadeiras nas ruas e longes das telas - Rovena Rosa/Agência Brasil
Para muitos, a ideia de infância antes dos anos 2000 é recheada de memórias de brincadeiras nas ruas e longes das telas
Por Bianca Bibiano

24/08/2026 | 15h09 ● Atualizado | 16h41

São Paulo - A imagem de crianças brincando na rua até o anoitecer, inventando jogos com amigos da vizinhança e passando horas longe das telas faz parte da memória das gerações que viveram a infância antes dos anos 2000. O que faz muita gente se perguntar: ser criança era melhor antigamente?

No Dia da Infância, que é comemorado nesta segunda-feira, 24 de agosto, o Viva ouviu especialistas em educação e desenvolvimento infantil, e a constatação é que a resposta não é tão simples. Por um lado, as crianças de hoje convivem com desafios que não existiam há alguns anos, como a expansão da violência nas ruas, o uso precoce da tecnologia, agendas repletas de compromissos e maior exposição às redes sociais

Por outro lado, crescem com mais acesso à informação, novas formas de aprendizagem e discussões sobre temas importantes que eram menos frequentes no passado, como saúde emocional, inclusão e convivência.

A infância está mudando?

Segundo Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), é natural que os adultos olhem para a própria infância com carinho e tenham a sensação de que ela foi melhor do que na atualidade.

É verdade que muitas crianças têm hoje menos oportunidades de brincar na rua, explorar espaços ao ar livre e conviver espontaneamente com outras crianças, experiências que são muito importantes para desenvolver criatividade, autonomia e aprender a lidar com desafios do dia a dia", analisa.

Ela pondera, porém, que atualmente a maioria das crianças cresce com mais acesso à informação, novas formas de aprender, tecnologias que podem enriquecer o ensino e maior contato com diferentes culturas e realidades. Para a docente, a pergunta não deve ser se uma geração teve uma infância melhor do que a outra:

Cada época traz oportunidades e desafios diferentes. O mais importante é garantir que as crianças tenham tempo para brincar, conviver, descobrir o mundo, criar vínculos e experimentar diferentes vivências."

Uma rotina ampliada pode ser saudável?

Muitas crianças permanecem na escola durante todo o dia e participam de atividades como aulas de idiomas, de música, atividades esportivas e propostas culturais. Essas experiências podem contribuir de forma significativa para o desenvolvimento, desde que sejam adequadas à faixa etária e organizadas com equilíbrio e intencionalidade. 

Para Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School (BIS), a questão não está apenas no tempo que a criança passa na escola ou na quantidade de atividades, mas na qualidade das experiências oferecidas

Uma rotina ampliada pode ser muito positiva quando alterna momentos de aprendizagem, brincadeira livre, movimento, descanso, interação e escolhas. A criança precisa participar de experiências significativas, mas também precisa ter tempo para brincar, imaginar e construir suas próprias descobertas.” 

A especialista explica que não existe uma organização única que funcione para todas as crianças. “É importante observar como cada criança vivencia sua rotina. Atividades extracurriculares enriquecem a formação quando respeitam o ritmo da infância e convivem de forma equilibrada com o brincar, o descanso e a convivência familiar", finaliza.

Telas dominam debate sobre a infância

O grande debate atual da infância recai sobre o excesso de telas, tema que já foi abordado desde governos até especialistas em saúde demonstrando os riscos. Para Carla Litrenta, psicopedagoga e educadora parental da Escola Internacional de Alphaville - EIA, de Barueri (SP), celulares, tablets e computadores são ferramentas importantes e fazem parte da forma como as crianças aprendem e se comunicam.

O problema surge quando o tempo de tela passa a substituir momentos essenciais para o desenvolvimento, como brincar livremente, praticar atividades físicas, conversar presencialmente, lidar com frustrações, explorar a criatividade e construir relações no mundo real."

Carla explica que a infância é o período em que habilidades socioemocionais são construídas por meio da convivência. "Empatia, autocontrole, comunicação, capacidade de resolver conflitos e de enfrentar pequenas frustrações são competências que se desenvolvem principalmente nas interações presenciais. Quando boa parte do tempo livre acontece diante de uma tela, essas oportunidades podem se tornar mais escassas."

Por isso, é preciso criar uma rotina em que a tecnologia ocupe um lugar saudável. “Estabelecer horários para os dispositivos, evitar o uso durante refeições e antes de dormir, incentivar brincadeiras ao ar livre e garantir momentos de convivência em família são algumas das estratégias que ajudam a equilibrar o mundo digital e as experiências indispensáveis para uma infância saudável”, acrescenta a docente.

O que uma infância saudável deve ter?

Na opinião de Michele Diniz, coordenadora da Educação Infantil do colégio Progresso Bilíngue de Vinhedo (SP), a infância não deve ser encarada apenas como uma preparação para a vida adulta, mas como uma etapa que tem valor em si mesma.

As experiências vividas nos primeiros anos influenciam a maneira como lidamos com frustrações, construímos relacionamentos, enfrentamos desafios e cuidamos da nossa saúde emocional ao longo da vida".

A especialista aponta elementos indispensáveis para que uma criança se desenvolva de forma saudável:

  • Brincar;
  • Criar vínculos afetivos;
  • Movimentar o corpo;
  • Explorar o mundo;
  • Nutrir relações de qualidade;
  • Sentir-se segura;
  • Saber que pode contar com adultos de confiança.

“Um dos maiores presentes que pais e educadores podem oferecer às crianças é a escuta genuína. Elas precisam sentir que são respeitadas, acolhidas e levadas a sério. Quando percebem que podem conversar sem medo de julgamentos, fazer perguntas, expressar emoções, admitir que erraram e pedir ajuda, desenvolvem confiança para enfrentar desafios e construir uma autoestima saudável. Essa segurança emocional nasce das relações que estabelecem com os adultos que fazem parte da sua vida", finaliza Michele Diniz.

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