Apesar de conscientes sobre morte, só 12% dos brasileiros têm seguro de vida
Apesar da alta consciência sobre a finitude, apenas 12% dos brasileiros têm seguro de vida, refletindo a falta de organização prática em momentos críticos
Envato
Especial Finitude: precisamos falar sobre a (própria) morte
A morte é um tabu cultural no Brasil, com 67% da população refletindo sobre a própria finitude, mas apenas 12% possuindo seguro de vida, o que evidencia um descompasso entre consciência e ação prática.
Embora 53% dos brasileiros considerem investimentos bancários como legado, 22% não possuem recursos e 13% deixarão dívidas, refletindo uma falta de organização financeira em relação à proteção patrimonial.
A pesquisa sugere que a reflexão sobre a finitude geralmente ocorre após eventos de luto ou crises, mas a adesão ao seguro de vida permanece baixa, indicando a necessidade de maior educação financeira e diálogo familiar sobre o tema.
São Paulo - A morte ainda é encarada como um tabu cultural no Brasil, tema quase sempre evitado até que uma perda ocorra. Romper esse silêncio pode ser indispensável para garantir estabilidade financeira e proteção familiar.
A advogada Cynthia Araújo, autora do livro A Vida Afinal: Conversas difíceis demais para se ter em voz alta (Paraquedas, 2023), avalia que o tema é frequentemente tratado como algo a ser evitado ou deslocado para o campo do outro.
“Os brasileiros ainda sentem que, se falarem da morte, vão atraí-la, como se ela estivesse à espreita. A experiência de morrer, nessa lógica, é sempre vivida pelos outros, nunca por mim. Quem morre é sempre ‘o outro’. Por outro lado, cada classe social, cada cor de pele, gênero, vive isso de um jeito”, observa.
Pesquisa realizada pela Icatu Seguros, em parceria com a Conversion, agência especializada em dados, SEO e inteligência de comportamento digital, indica que 67% dos brasileiros pensam na própria finitude com frequência ou de vez em quando. Apesar disso, essa consciência raramente vira ação prática: apenas 12% possuem seguro de vida, enquanto 43% já conversaram com parentes sobre o tema sem estruturar medidas concretas.
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O cenário expõe um descompasso entre alta consciência e baixa organização. De acordo com a diretora de produtos de vida da Icatu Seguros, Luciana Bastos, embora a maioria reconheça a importância de proteger quem fica, a ausência de estrutura financeira e de educação sobre o tema pode transformar o momento do luto em uma etapa marcada por custos adicionais, conflitos e insegurança.
O problema não está na falta de consciência, mas na dificuldade de transformar essa reflexão em organização prática. O seguro de vida entra justamente como uma ferramenta para reduzir incertezas em momentos críticos, sejam eles morte, doença grave ou afastamento temporário do trabalho.
Luciana Bastos, diretora de produtos de vida da Icatu Seguros
Proteção do patrimônio
Embora 53% dos brasileiros apontem investimentos bancários como principal legado aos familiares, 22% afirmam não possuir qualquer recurso e 13% admitem que deixarão dívidas ativas. A adesão ao seguro de vida permanece estagnada em 12% entre diferentes faixas sociais, reflexo da ideia errônea de que o produto serve unicamente para indenização por falecimento.
No diálogo familiar, a inércia predomina: 59% já tocaram no assunto, mas 43% nada organizaram, 16% deixaram providências prontas e 40% dividem-se entre os que pretendem falar e os que se recusam a tratar da pauta.
A reflexão prática sobre finitude costuma surgir após episódios de ruptura, liderados pelo luto próximo (67%), envelhecimento (33%), violência cotidiana (33%) e cirurgias ou exames médicos invasivos (30%).
Quando estimulados por esses fatos, 40% analisam partilhas patrimoniais, 34% poupam recursos e 25% buscam liquidar pendências financeiras. Todavia, quase um quinto dos entrevistados reconhece que a reflexão não resulta em medidas práticas, estacionando na intenção.
Recortes de gênero
A violência urbana é o gatilho de finitude predominante entre as mulheres (36%), contra 29% registrado entre os homens, reflexo da sensação de vulnerabilidade social. Entre o público masculino, os motivadores centrais envolvem idade e carreira (39%).
No planejamento, os homens declaram maior taxa de organização financeira prática (20%), enquanto 26% das mulheres manifestam preocupação com dependentes sem adotar plano definido. O público masculino também relata maior isolamento no luto (27%), frente a um perfil feminino mais propenso à busca de apoio comunitário e emocional (23%).
Contrastes geracionais
As gerações Z (22%) e Millennials (24%) são as que mais pensam na morte de modo recorrente, ante 15% na Geração X e somente 7% entre os Boomers. Essa alteração de perspectiva cultural entre os mais jovens, contudo, não elevou a contratação de instrumentos protetivos.
A taxa de posse de seguro de vida oscila entre 11% e 13% em todas as idades, e a dependência de investimentos comuns para fins sucessórios permanece nivelada em 50% em todos os estratos avaliados.
“Ainda existe uma percepção limitada de que o seguro de vida está ligado apenas à morte. Na prática, ele é um instrumento de proteção para imprevistos que afetam a renda e a estabilidade financeira, sendo também, por exemplo, um instrumento importante de sucessão patrimonial. Planejar é garantir continuidade, não apenas herança”, destaca Luciana Bastos.
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