CONFIRA

Fabrício Carpinejar: "A finitude só começa de verdade na maturidade"

Em entrevista ao VIVA, escritor fala do luto como um processo contínuo, defende o diálogo sobre a finitude e adverte sobre o esvaziamento da era digital

Bianca Bibiano

Por Bianca Bibiano

02/11/2026 | 08h16

Yury Oliveira/Divulgação

"Luto é uma ansiedade do que nunca mais vai acontecer", define o escritor gaúcho - Yury Oliveira/Divulgação
"Luto é uma ansiedade do que nunca mais vai acontecer", define o escritor gaúcho
Ouvir texto 2:27 1x

Fabrício Carpinejar, renomado escritor brasileiro, explora temas como a perda e o luto em suas obras e projetos, incluindo o 'Manual do Luto' e o Clube dos Corações Solidários, onde oferece apoio a pessoas enlutadas, promovendo um espaço seguro para a expressão da dor.

Ele argumenta que a consciência da finitude surge na maturidade, levando a uma reavaliação da vida e da importância do legado emocional, além de destacar a necessidade de discutir abertamente questões relacionadas à morte para desmistificar tabus sociais.

Carpinejar alerta para os impactos da 'era do Alzheimer digital' na memória e na percepção da finitude, propondo que a sociedade deve valorizar a profundidade das experiências e a preservação da memória, especialmente em um mundo cada vez mais disperso e superficial.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Autor de 55 livros, com obras reconhecidas pelo Prêmio Jabuti e seguido por mais de cinco milhões de pessoas nas redes sociais, o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar consolidou-se como uma das vozes mais populares e sensíveis da literatura brasileira contemporânea. Para além das célebres reflexões poéticas escritas em guardanapos, o autor tem mergulhado de forma incisiva em territórios que a sociedade frequentemente tenta silenciar: a perda, a finitude e o processo de elaboração da dor.

Esse olhar ganhou corpo em obras como "Manual do Luto" (2023) e se desdobra em projetos como o Clube dos Corações Solidários, no qual o escritor troca mensagens com pessoas enlutadas. Ao acolher milhares de desabafos, Carpinejar se define como alguém que abre espaço seguro para que o outro exercite "a liberdade de doer sem julgamentos" e organize seus sentimentos. E define o luto como "uma ansiedade sem conserto".

Em entrevista exclusiva ao VIVA, Carpinejar desconstrói mitos sobre o tempo, reflete sobre a urgência de preservar a lucidez mental em plena era do "Alzheimer digital" e defende que o luto não é um processo que se encerra, mas uma marca indelével que ressignifica toda a nossa trajetória. 

VIVA Entrevista

Como você define a finitude?

Eu acho que a finitude só começa de verdade na maturidade. Você não tem essa consciência aguda do tempo passando. Você até acelera o tempo. Como se o tempo não fosse seu. Como se o tempo fosse inesgotável. É quando surgem as limitações, como partida, adeus de pessoas próximas, doenças, reveses físicos, crises emocionais, que você entende que sempre foi frágil, que sempre foi por um fio.

A finitude tem seu batismo quando você quer se preservar para alguém. Vê, o amor-próprio nunca surge de modo natural para si mesmo. O amor-próprio é quando você quer se cuidar para um outro. Pode ser seu par, pode ser seu filho. O quanto que o medo nasce com o filho. Quando você tem um filho, você deixa de ser inconsequente para permanecer o máximo de tempo junto dele. É quase uma troca de software.

Essa consciência da finitude muda a postura diante do passado e do futuro?

É, você vai recapitular sua vida de adolescente como se fosse absolutamente intrépida e inconsequente. Você não vai acreditar em tudo que você era capaz de fazer. Hoje você pensa, hoje você hesita. Hoje você quer se sentir seguro por alguém. Você passa a carregar a noção do legado. 

Há aspectos práticos, como testamento vital, partilha de bens e herança digital. Falar sobre isso também ajuda a diminuir o tabu em torno da morte?

Sem dúvida. Quando vamos falar abertamente dos contratos sociais, dos rituais, dos desejos pós-morte, sem que você esteja com isso atraindo o fim, como se fosse um magneto do azar, torna a convivência mais clara e didática. Um exemplo: se você é doador de órgãos e você não expressou isso em documento, com a sua vontade expressa, apenas comentou isso para os familiares. Olha o quanto é difícil que tal generosidade se confirme.

De que forma planejar esse pós-morte se relaciona com generosidade?

É uma preocupação que você tem mesmo não estando mais aqui. Eu falo que é uma generosidade atemporal. Uma empatia atemporal. Mas o legado é você que decide, não importando o que aconteça com a herança.

A herança é o que você recebe de material do outro. O legado é o que você escolhe emocionalmente para ter do outro.

O legado é um DNA cultural. É o que vai impulsionar a saudade. O legado é quando você quer se parecer com o outro, quando você decide se parecer com o outro. É quando você carrega uma mania, um traço, um comportamento, de modo propositado, porque você se orgulha do vínculo. Tanto que eu lembro o quanto que filhos adotivos com a convivência do amor passam a se parecer com os pais de criação como se fossem do próprio sangue. O rosto do destino é muito maior que os traços genéticos.

As nossas experiências modificam as nossas estruturas mais secretas e remotas. Não sei se você acredita nisso, mas eu acredito.

Esse vínculo afetivo pode ultrapassar gerações?

É a vida. Mas tem razões científicas que provam isso. Imagine o fato de você amar em sua vida, o quanto que isso vai reboar e repercutir por várias e várias gerações da sua família. Torna-se uma marca. Muda a sua linha cronológica, muda a sua linha sucessória. Quando você ama aqui, esse amor vai ser sentido lá no seu tataraneto. 

Quando pensamos em longevidade, podemos falar também dessa permanência póstuma?

Exato. Tem um escritor, o Pedro Schestatsky, ele tem um livro chamado "Cérebro Quebrados", eu escrevi o prefácio. Ele é um neurologista. É fabulosa a sua teoria. Ele traz o seguinte: que nós estamos cuidando da longevidade do corpo mas estamos perdendo a longevidade da mente. A mente não vai acompanhar o corpo. A mente vai quebrar antes. Porque você vai ter uma vida longa vegetativa. Com Alzheimer, com sequelas, inconsciente. Porque a gente não faz um cuidado integrado.

E ele aponta que morrer lúcido significa algo cada vez mais extinto. Você vai ter demência, você vai ter a carcaça de não ter mais controle sobre sua própria vida, seu próprio corpo. O corpo estará ali como uma carcaça. E isso que me preocupa: a longevidade da mente. O quanto que você segue vivendo com autonomia.

Nunca passamos por tantos esquecimentos, lapsos precoces, pois estamos vivendo um Alzheimer digital. 

Não existe mais a fisioterapia das lembranças, porque você delega para tudo que é aplicativo. Você não recorda mais. Você logo se informa pelo Google, por qualquer ferramenta de busca. Você não suporta a dúvida. Você não suporta não lembrar durante uma, duas horas. A memória não é mais nossa, é como se a gente tivesse uma nuvem. Como se a nossa memória estivesse fora do nosso corpo.

E a gente vai se esvaziando da presença. Estamos num show, o filmamos e postamos diretamente as gravações nas redes sociais. A gente nunca mais vai revisitar o conteúdo gravado. São milhares e milhares de gravações que não são retomadas. Então você não olhou o show, você gravou o show. Pergunte para quem filma um espetáculo, um casamento, se ele vai lembrar do que aconteceu. Não existe essa fixação.

Nós somos incentivados à simultaneidade, a fazer duas, três, quatro tarefas ao mesmo tempo, e não guardamos nenhuma delas. Porque inventamos esse hábito de querer estar em dois ou três lugares, se nós só conservamos a memória a partir do corpo. Somos monotemáticos. Os gênios não são aqueles que se espalham, são aqueles que se aprofundam. 

Esse excesso de dispersão afeta a percepção que a sociedade tem da própria finitude?

E como que não vai impactar? Eu nunca vi tantos adolescentes com problemas de memória. Não sabem onde colocou, não sabem onde foi, não sabe o que está fazendo. Sendo que a memória é prodigiosa durante a juventude. O que eu pressinto? Que teremos cada vez mais existências mentais atrofiadas. A leitura não pode ser feita de dispersão. Você lê um livro, cinco minutos depois já olha pro celular. Você não consegue manter uma linha de raciocínio intermitente. É esse medo de estar perdendo algo de importante. É o medo de que algo está acontecendo e você não sabe. É o medo de não ter mais o domínio da própria do próprio curso dos acontecimentos.

É isso que vai impactar a longevidade. É isso que vai impactar o quanto que você ainda possui esse domínio das suas funções, na plenitude das suas funções. Você precisa do aprofundamento. 

Você costuma afirmar que a sociedade tem preconceito contra o luto. Como essa negação se estrutura?

É muito forte. O luto é a preservação da memória. E nós combatemos justamente a possibilidade de falar ou mencionar o morto. Uma vez morto, você deve esquecê-lo. E você não esquece. Você vai sofrer em silêncio. Você vai sofrer à revelia, porque são mentiras sociais absolutamente desumanas, [dizer] que o luto passa. Não passa.

O luto é para a vida inteira. Você nunca mais será o mesmo. Será impactado com uma ausência, vai reordenar as suas escolhas, vai reorquestrar a sua condição. Terá novas prioridades e um novo entendimento dos prazos. Os limites são outros, a contenção é outra, a comunicação é outra.

Você pode ter 10, 15 anos de uma despedida e sofrer como se fosse o primeiro dia. Porque o luto é um outro tempo. É o tempo do espasmo. Ele ocorre em ondas. Ele não se acumula para terminar. Ele circula para permanecer. Não sei se estou sendo abstrato demais, mas o luto tem cinco fases.

Quais são essas cinco fases do luto?

A raiva, a culpa, a aceitação, a saudade e a gratidão. A raiva é: você xinga o morto. "Por que você fez isso? Por que você não se cuidou?". Você sente uma raiva do mundo, uma raiva de quem partiu, uma raiva de existir. Depois vem a culpa. Você dirige a raiva para si mesmo. "Por que eu não cuidei mais? Por que eu não estive tão presente? Por que eu não dei tanta atenção para ele?". A terceira fase é a aceitação. Você finalmente aceita que a pessoa não voltará mais. Você passa a organizar sua vida a partir daquela falta, segue a sua vida. A quarta fase é a saudade. É quando você forma o legado e quer que a vida da pessoa tenha um sentido social, biográfico. É quase como querer perpetuar alguém. E, por último é a gratidão. Você não diz mais "eu perdi alguém", você diz "eu ganhei alguém" durante esse período.

Mas o luto são feitos de ondas, ou seja, não é um caminho linear. Você pode estar na gratidão e voltar para a primeira fase. E voltar para a segunda. Porque são ondas emocionais. Não são ondas cronológicas. São ondas psicológicas. É o maremoto do inconsciente. O luto muda a sua vida e a sua vida vai mudando o luto.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.