CONFIRA

Falar de perda e finitude é parte do cuidado com quem fica, diz Juliana Dantas

O luto não segue fases nem respeita calendários. Para Juliana Dantas, especialista em cuidados paliativos, falar de perda e finitude é parte do cuidado com quem fica

Alessandra Taraborelli

Por Alessandra Taraborelli

02/11/2026 | 08h15

Acervo pessoal

Juliana Dantas, sócia do Movimento InFINITO, diz que calar-se sobre a morte não nos protege dela - Acervo pessoal
Juliana Dantas, sócia do Movimento InFINITO, diz que calar-se sobre a morte não nos protege dela
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O luto é uma experiência complexa que não segue um padrão rígido, desafiando a cultura que tende a minimizar a dor da perda e a exigir recuperação rápida. Especialistas afirmam que o luto deve ser reconhecido como uma resposta humana natural à perda, não como uma doença a ser superada.

A percepção do luto varia entre indivíduos, e cada um vive a dor de maneira única, o que torna inadequadas as comparações sobre quem sofre mais. Além disso, o luto pode ser desencadeado por diversas perdas, não apenas a morte, como o fim de relacionamentos ou a perda de uma carreira.

Medidas de autocuidado durante o luto incluem a ressignificação de rituais e a validação da dor, permitindo que os enlutados se afastem de celebrações quando necessário. Falar sobre a morte e a finitude é essencial para preparar as pessoas e garantir dignidade nas decisões relacionadas ao fim da vida, como a doação de órgãos.

Resumo gerado por IA

São Paulo - No rádio do carro, durante o trânsito, uma melodia esquecida começa a tocar e, sem aviso prévio, traz o cheiro, a risada e o vazio deixado por quem se foi. O luto não agenda horário, ele não pede licença, não respeita protocolos e tem o hábito desconcertante de nos encontrar nas brechas mais banais do cotidiano.

Vivemos em uma cultura que prefere empurrar esse tema para debaixo do tapete. De acordo com Juliana Dantas, jornalista especializada em Cuidados Paliativos, morte e luto e sócia e diretora de comunicação do Movimento inFINITO, falar de finitude é um exercício de amor.

Por ser o único desfecho incontornável da existência, calar-se sobre a morte não nos protege dela, apenas nos deixa completamente desarmados quando ela bate à porta.

Para a especialista, chegar desavisado ao envelhecimento, ao diagnóstico grave e à finitude multiplica o sofrimento. Morte é tratada como uma falha médica, um acidente de percurso ou uma grosseria sobre a qual não se deve comentar à mesa.

Diante da dor alheia, a pressa social exige recuperação rápida, com frases como: "vida que segue", "seja forte", "o tempo cura tudo". A especialista ressalta, no entanto, que a verdade por trás do luto é menos linear e muito mais corajosa.

O luto não é uma doença a ser curada, nem uma etapa a ser superada. É a resposta mais humana, lúcida e proporcional diante da quebra de um vínculo de amor. Se a perda é real e definitiva, tentar fugir dela só faz o sofrimento perdurar de forma mais áspera. O único caminho possível é puxar a cadeira, servir uma xícara de café e sentar-se com ele.
Juliana Dantas, sócia do Movimento inFINITO

Não existe "superação"

cena de velório em SP - foto de  NILTON FUKUDA
Cada um lida com o luto de uma maneira, e não cabe julgamento - Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo

Juliana Dantas lembra que durante décadas, fomos ensinados a enxergar o luto sob uma régua. A teoria das cinco fases (proposta pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross), de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, pode parecer um percurso de degraus. A experiência, contudo, está mais para a ideia de um pêndulo, defende ela.

Em uma extremidade da oscilação está a orientação para a perda: o recolhimento, a necessidade de chorar no escuro, o apego às fotografias antigas, o silêncio pesado. Na outra extremidade está a orientação para a restauração: o ímpeto repentino de caminhar no parque, o retorno ao trabalho, o planejamento de uma viagem adiada.  "O pêndulo vai e volta — às vezes em questão de minutos". 

Por essa razão, ela diz que evita usar o verbo 'superar'. Supera-se um obstáculo ou uma crise temporária.

Um pai, uma mãe, um filho não se superam, eles seguem ausentes. A perda não desaparece; ela se transforma no desafio diário de reencontrar formas de manter aquele laço vivo dentro de nós.

Datas comemorativas; por quê?

Se o luto caminha conosco o ano inteiro, datas comemorativas operam como megafones da ausência. O Dia de Finados, os aniversários pessoais e, sobretudo, as festas de fim de ano desmontam a armadura construída ao longo dos meses.

O impacto raramente se resume ao dia do evento, ele reside na aproximação. O primeiro Papai Noel desenhado em uma vitrine em outubro, o primeiro panetone empilhado nas prateleiras ou a enxurrada de anúncios de celebração chegam como convites dolorosos a quem carrega um vazio recente.

Enquanto a sociedade exige luzes, banquetes e confraternização ruidosa, quem perdeu alguém não sabe se terá forças para sentar-se à mesa, se conseguirá conter o choro ou se terá permissão para pronunciar em voz alta o nome de quem se foi. Nesses momentos, o autocuidado exige autorização interna:

  • Ressignificar o ritual: Almoçar em família na data de nascimento de quem partiu para celebrar sua passagem, em vez de fingir que é um dia qualquer;
  • Romper com a inércia: Se ir ao cemitério em Finados se tornou um peso mecânico, escolher fazer uma oração em silêncio no próprio quarto sem carregar culpa;
  • Validar a pausa: Retirar-se da festa quando a dor apertar, entendendo que a saudade não tem obrigação de performar felicidade para não constranger a sala.

Doação de órgãos ainda é tabu

Um exemplo de tabu sobre finitude é a doação de órgãos. Por lei, a decisão final pertence estritamente aos familiares, independentemente do que o indivíduo tenha declarado em documentos durante a vida. Se o assunto nunca entrou nas conversas da família, a recusa por medo e despreparo muitas vezes se impõe no momento mais crítico.

Trazer a finitude para a luz não significa cultivar o pessimismo, mas garantir dignidade. Falar sobre os medos ("tenho medo da dor, não da morte"), sobre os limites do que consideramos vida com sentido e sobre o que desejamos para os nossos momentos finais é o maior ato de cuidado que podemos deixar para quem fica.

O diálogo não precisa da solenidade dos hospitais. Ele pode surgir no almoço de domingo, na saída de uma sessão de cinema ou ao redor de um café: Pai, você tem medo de morrer? Mãe, o que é inegociável para você se um dia você adoecer?

Tipos de luto

Quando alguém perde um ente querido e, dias depois, embarca em uma viagem, o julgamento alheio costuma ser implacável. No entanto, ninguém sabe o que move aquele passo, talvez fosse a viagem sonhada junto àquele pai que partiu, ou o refúgio indispensável de quem passou dez anos ininterruptos cuidando de uma mãe em leito domiciliar. “Não se viaja apesar do luto, mas muitas vezes por causa dele”.

O luto tampouco se restringe ao cemitério. Ele é desencadeado por qualquer rompimento profundo:

  • O fim de um casamento longo;
  • A perda de uma carreira construída com afinco;
  • O exílio e a migração forçada;
  • A perda gestacional.

Esta última carrega uma das dores mais solitárias. A perda gestacional tem poucos contornos materiais. Sem rituais estabelecidos, ela é frequentemente minimizada por frases bem-intencionadas que ferem: "logo vocês têm outro". 

Juliana pondera que, uma mesma perda divide famílias sob formas irreconhecíveis. Três irmãos que perdem o mesmo pai não vivem a mesma dor. Há o filho que assume a burocracia dos cartórios sem derramar uma gota de lágrima; há a filha que se agarra ao caixão em desespero; e há o irmão que chora intensamente no funeral e, na semana seguinte, retoma a rotina externa. Quem sente mais? Quem sente menos?

Não há resposta para essa pergunta, afirma, porque cada um amou a partir de um lugar único. As réguas morais que medem o sofrimento dos outros servem apenas para alimentar a solidão de quem precisa de escuta.

A especialista, no entanto, chama a atenção para quando a dor congela as engrenagens básicas da vida por tempo e intensidade desproporcionais, no que a clínica hoje denomina luto complicado. Neste caso, o apoio psicoterapêutico ou psiquiátrico se faz necessário como rede de amparo - mas nunca como juiz, alerta.

A morte não é um fracasso moral da medicina ou da biologia; ela é o contorno que confere valor ao tempo presente. Olhar para ela com sobriedade e afeto nos devolve ao lugar mais essencial: a urgência de estarmos verdadeiramente vivos enquanto é dia.

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