Nem 'gagá' nem 'vozinho': o guia que ensina a combater o idadismo na fala
Conheça as expressões, diminutivos e falsos elogios que devem ser abolidos do vocabulário para respeitar e incluir as pessoas idosas
Tânia Rêgo/Agência Brasil
O Brasil enfrenta um rápido envelhecimento populacional, o que torna urgente o combate ao idadismo, ou preconceito contra a idade, promovendo inclusão e autonomia para os idosos. A recente participação ativa de pessoas com 60 anos ou mais nas eleições reflete uma crescente mobilização cívica, mas a sociedade ainda enfrenta desafios significativos, como internações por quedas e denúncias de violência contra essa faixa etária.
Dados alarmantes revelam que 194 mil idosos foram internados por quedas e 180 mil denúncias de violência foram registradas, evidenciando a necessidade de uma mudança cultural que vá além da representatividade. Especialistas, como o médico Alexandre Kalache, enfatizam a importância de substituir termos estigmatizantes por uma linguagem que respeite a dignidade e a individualidade dos idosos.
Iniciativas como o trabalho do coletivo Velhices Cidadãs, que envolve 43 especialistas, buscam educar a sociedade sobre o uso de uma linguagem inclusiva e respeitosa. O foco está em promover um entendimento mais profundo do envelhecimento, incentivando um posicionamento ativo contra o idadismo e propondo alternativas de comunicação que valorizem a experiência e a autonomia dos idosos.
São Paulo — Seja no trabalho ou dentro de casa, o combate ao idadismo — preconceito ou discriminação com relação à idade — começa pelo vocabulário. O rápido envelhecimento populacional no Brasil e na América Latina trouxe a urgência de compreender o longeviver sob a lente da inclusão, da autonomia e da participação cívica.
No domingo do segundo turno das eleições gerais, começaram a circular inúmeros vídeos de pessoas idosas comparecendo às urnas no colo de filhos ou netos, mesmo com as limitações de mobilidade, em um pleito que, ao que tudo indica, pode ter acumulado a menor taxa de abstenção do eleitorado com 60 anos ou mais da história da redemocratização.
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Contudo, numa sociedade em que 194 mil pessoas idosas foram internadas por quedas no ano passado, e em que, no mesmo período, o Disque 100 registrou 180 mil denúncias de violência nas mais distintas áreas — patrimonial, física ou psicológica —, não basta a representatividade; a mudança começa também pela fala.
Para o colunista do VIVA Notícias, o médico epidemiologista Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil) e ex-diretor da OMS, é preciso substituir expressões e palavras carregadas de estereótipos sobre a velhice e também evitar as suavizações.
Inspirando-se na célebre frase da ativista norte-americana Angela Davis sobre o antirracismo — "não basta não ser racista, é preciso ser antirracista" —, Kalache convoca a sociedade para um posicionamento ativo.
Não basta você não ser idadista, você tem que ser anti-idadista e berrar, gritar, protestar a cada momento em que se depara com uma situação preconceituosa em relação às pessoas idosas. E de novo: lembrando ao jovem que ele vai ser a pessoa idosa de amanhã.
Alexandre Kalache, médico gerontólogo
O trabalho organizado pelo médico junto ao coletivo Velhices Cidadãs — com a participação ativa de 43 especialistas no envelhecimento saudável e em direitos humanos — inspira-se na estrutura do Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, para compor capítulos que discorrem sobre o idadismo no falar como uma ferramenta educativa permanente.
Confira alguns apontamentos feitos pelos autores:
O que evitar?
Falsos parentescos ou diminutivos
São termos que expressam uma relação de parentesco inexistente com a pessoa idosa, o que pode infantilizá-la, diminuí-la e desqualificá-la.
A conotação ofensiva surge quando o indivíduo não tem relação familiar alguma (o que distorce a noção de carinho desses termos) ou quando se evita falar diretamente com a pessoa idosa, dirigindo-se sempre ao acompanhante.
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Eufemismos
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Falsos elogios
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Capacitismo
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Representatividade
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Por que idadismo e não etarismo?
Apesar de ambos os termos estarem corretos, o médico Alexandre Kalache e o manual defendem a adoção de "idadismo" em vez de "etarismo".
Isso porque o termo resgata o conceito original de ageism (derivado de age, "idade"), em analogia direta a racism (racismo) e sexism (sexismo), cunhado em 1969 pelo gerontólogo norte-americano Robert Butler, então diretor do National Institute on Aging, em Washington.
Adotado como a tradução oficial pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o idadismo é amplamente difundido na academia e preferido por especialistas, gerontólogos e órgãos oficiais. No entanto, na internet, o termo "etarismo" ganhou espaço no debate popular e midiático.
"Eu não sei por que no Brasil pegou a moda de falar etarismo. A gente se comunica por meio da linguagem. Ora, se a gente se refere à idade, é muito mais fácil explicar por que o preconceito é contra a idade. Vamos simplificar, comunicar um com o outro as ideias da forma mais simples e acessível possível."
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