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Nem 'gagá' nem 'vozinho': o guia que ensina a combater o idadismo na fala

Conheça as expressões, diminutivos e falsos elogios que devem ser abolidos do vocabulário para respeitar e incluir as pessoas idosas

Paula Bulka Durães

Por Paula Bulka Durães

05/11/2026 | 15h31

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Envelhecimento no Brasil trouxe a urgência de compreender o longeviver sob a lente da autonomia - Tânia Rêgo/Agência Brasil
Envelhecimento no Brasil trouxe a urgência de compreender o longeviver sob a lente da autonomia
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O Brasil enfrenta um rápido envelhecimento populacional, o que torna urgente o combate ao idadismo, ou preconceito contra a idade, promovendo inclusão e autonomia para os idosos. A recente participação ativa de pessoas com 60 anos ou mais nas eleições reflete uma crescente mobilização cívica, mas a sociedade ainda enfrenta desafios significativos, como internações por quedas e denúncias de violência contra essa faixa etária.

Dados alarmantes revelam que 194 mil idosos foram internados por quedas e 180 mil denúncias de violência foram registradas, evidenciando a necessidade de uma mudança cultural que vá além da representatividade. Especialistas, como o médico Alexandre Kalache, enfatizam a importância de substituir termos estigmatizantes por uma linguagem que respeite a dignidade e a individualidade dos idosos.

Iniciativas como o trabalho do coletivo Velhices Cidadãs, que envolve 43 especialistas, buscam educar a sociedade sobre o uso de uma linguagem inclusiva e respeitosa. O foco está em promover um entendimento mais profundo do envelhecimento, incentivando um posicionamento ativo contra o idadismo e propondo alternativas de comunicação que valorizem a experiência e a autonomia dos idosos.

Resumo gerado por IA

São Paulo — Seja no trabalho ou dentro de casa, o combate ao idadismo — preconceito ou discriminação com relação à idade — começa pelo vocabulário. O rápido envelhecimento populacional no Brasil e na América Latina trouxe a urgência de compreender o longeviver sob a lente da inclusão, da autonomia e da participação cívica.

No domingo do segundo turno das eleições gerais, começaram a circular inúmeros vídeos de pessoas idosas comparecendo às urnas no colo de filhos ou netos, mesmo com as limitações de mobilidade, em um pleito que, ao que tudo indica, pode ter acumulado a menor taxa de abstenção do eleitorado com 60 anos ou mais da história da redemocratização.

Contudo, numa sociedade em que 194 mil pessoas idosas foram internadas por quedas no ano passado, e em que, no mesmo período, o Disque 100 registrou 180 mil denúncias de violência nas mais distintas áreas — patrimonial, física ou psicológica —, não basta a representatividade; a mudança começa também pela fala.

Para o colunista do VIVA Notícias, o médico epidemiologista Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil) e ex-diretor da OMS, é preciso substituir expressões e palavras carregadas de estereótipos sobre a velhice e também evitar as suavizações.

Inspirando-se na célebre frase da ativista norte-americana Angela Davis sobre o antirracismo — "não basta não ser racista, é preciso ser antirracista" —, Kalache convoca a sociedade para um posicionamento ativo.

Não basta você não ser idadista, você tem que ser anti-idadista e berrar, gritar, protestar a cada momento em que se depara com uma situação preconceituosa em relação às pessoas idosas. E de novo: lembrando ao jovem que ele vai ser a pessoa idosa de amanhã.
Alexandre Kalache, médico gerontólogo

O trabalho organizado pelo médico junto ao coletivo Velhices Cidadãs — com a participação ativa de 43 especialistas no envelhecimento saudável e em direitos humanos — inspira-se na estrutura do Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, para compor capítulos que discorrem sobre o idadismo no falar como uma ferramenta educativa permanente.

Confira alguns apontamentos feitos pelos autores:

O que evitar?

Falsos parentescos ou diminutivos

São termos que expressam uma relação de parentesco inexistente com a pessoa idosa, o que pode infantilizá-la, diminuí-la e desqualificá-la.

A conotação ofensiva surge quando o indivíduo não tem relação familiar alguma (o que distorce a noção de carinho desses termos) ou quando se evita falar diretamente com a pessoa idosa, dirigindo-se sempre ao acompanhante.

  • "Tio, tiozão, tiozinho": presume um parentesco inexistente e desqualifica a pessoa idosa no espaço público. Alternativa: Usar expressões diretas e legais ("pessoa idosa", "pessoas idosas" ou "velhice").
  • "Vovô, vovó, vozinha, vozinho": Apaga a história e a individualidade da pessoa, reduzindo-a a um papel familiar genérico. Alternativa: Tratar a pessoa pelo nome próprio ou pronomes de tratamento.
  • "Bracinho, picadinha, comidinha, andadinha": Constitui infantilização desqualificante, tratando o adulto idoso como uma criança ou bebê. Alternativa: Comunicação objetiva e direta ("pode me dar seu braço?", "vamos caminhar?", "comer uma refeição?").
  • Falar com o acompanhante em vez de falar com a pessoa idosa: Invisibiliza a pessoa idosa presente, retirando sua autonomia e poder de decisão. Alternativa: Dirigir a conversa, conselhos e orientações diretamente à pessoa idosa.

Eufemismos

  • "Terceira idade": Associa-se a uma lógica ultrapassada que dividia a vida em três fases rígidas (1ª aprender, 2ª realizar, 3ª aposentar). Alternativa: Usar expressões diretas e legais ("pessoa idosa", "pessoas idosas" ou "velhice").
  • "Melhor idade": Eufemismo criado para mascarar o preconceito contra a velhice; o bem-estar varia para cada indivíduo e não serve como rótulo genérico. Alternativa: Denominações objetivas como "pessoa idosa" ou "velhices".
  • "Feliz idade": Trocadilho que impõe uma felicidade compulsória e padronizada, ignorando as reais condições de vida do indivíduo. Alternativa: Tratar a velhice com realismo, sem impor rótulos emocionais genéricos.
  • "Não sou velha (o), tenho juventude acumulada": Expressão de idadismo autodirigido em que a pessoa esconde a palavra "velha (o)" por vergonha introjetada. Alternativa: Assumir a velhice e o envelhecer com orgulho, reconhecendo-os como uma conquista e um estágio de cidadania.

Falsos elogios

  • "Nossa! Nem parece a idade que tem!" / "Muito bem conservada (o)": Condiciona o elogio à negação da idade, propagando a ideia de que aparentar envelhecimento é algo pejorativo. Alternativa: Elogiar sem vincular ou anular a idade ("Você está ótima (o)" ou "Está bonita (o)").
  • "Apesar da sua idade...": Carrega o viés implícito de que ter mais idade traria inevitavelmente limitações ou incapacidades. Alternativa: Valorizar as qualidades no presente, sem condicionantes baseados em anos de vida.
  • "Você devia ser muito bonita (o) quando jovem" / "Imagino como era bonita anos atrás": Apaga a beleza do presente, sugerindo que o valor estético e a vivacidade existem apenas na juventude. Alternativa: Elogiar a beleza e a presença da pessoa no momento atual.
  • "Essa roupa não combina com sua idade" / "Passou da idade de usar isso": Impõe julgamentos e restrições sobre a vestimenta e a autonomia de estilo com base nos anos vividos. Alternativa: Respeitar a autonomia, a identidade e a liberdade de estilo da pessoa idosa.
  • Anti-aging (antienvelhecimento): Conceito mercadológico que trata o processo natural de envelhecer como um mal a ser combatido. Alternativa: Focar no cuidado com a saúde, bem-estar e autoaceitação, sem combater o envelhecimento natural.

Capacitismo

  • "Tá ficando gagá" / "Caduca" / "Memória de velha (o)": Atribui qualquer lapso de memória ou comportamento indesejado à idade, reforçando estereótipos. Alternativa: Tratar lapsos de forma objetiva, reconhecendo que esquecimentos acontecem em todas as idades.
  • "É coisa da idade" / "DNA – Data de Nascimento Antiga": Prática de profissionais de saúde que atribuem dores e sintomas apenas à idade, comprometendo diagnósticos. Alternativa: Investigar queixas com rigor clínico e oferecer um olhar integral de cuidado.
  • "Já deu o que tinha que dar" / "Prazo de validade para o trabalho": Trata o indivíduo como se houvesse uma "vida útil" descartável, associando a velhice ao fim da utilidade social. Alternativa: Valorizar a aprendizagem ao longo de toda a vida (lifelong learning) e a experiência do trabalhador.
  • O uso questionador do "Ainda" ("Você ainda trabalha?", "Ainda estuda?"): Questiona a capacidade contínua da pessoa idosa e impõe limites artificiais ao seu desenvolvimento. Alternativa: Tratar o trabalho e o aprendizado de forma natural em qualquer fase do curso de vida.

Representatividade

  • "Idoso" (no masculino genérico): Oculta a maioria feminina da população idosa e invisibiliza a diversidade de gênero. Alternativa: Adotar a expressão inclusiva "pessoa idosa" (ou "pessoas idosas"), alinhada ao Estatuto da Pessoa Idosa.
  • Desgenderização e apagamento da sexualidade: Ignora a vivência da sexualidade e a diversidade de gênero na velhice. Alternativa: Atendimento humanizado que respeite a diversidade sexual e de gênero na velhice.

Por que idadismo e não etarismo?

Apesar de ambos os termos estarem corretos, o médico Alexandre Kalache e o manual defendem a adoção de "idadismo" em vez de "etarismo".

Isso porque o termo resgata o conceito original de ageism (derivado de age, "idade"), em analogia direta a racism (racismo) e sexism (sexismo), cunhado em 1969 pelo gerontólogo norte-americano Robert Butler, então diretor do National Institute on Aging, em Washington.

Adotado como a tradução oficial pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o idadismo é amplamente difundido na academia e preferido por especialistas, gerontólogos e órgãos oficiais. No entanto, na internet, o termo "etarismo" ganhou espaço no debate popular e midiático.

"Eu não sei por que no Brasil pegou a moda de falar etarismo. A gente se comunica por meio da linguagem. Ora, se a gente se refere à idade, é muito mais fácil explicar por que o preconceito é contra a idade. Vamos simplificar, comunicar um com o outro as ideias da forma mais simples e acessível possível."

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