Canetas emagrecedoras podem fazer mal à saúde? Conheça os efeitos adversos
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São Paulo - A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou na última semana um projeto para monitorar os efeitos adversos na saúde da população brasileira causados pelo crescente uso dos medicamentos injetáveis para obesidade, as populares 'canetas emagrecedoras'.
Embora especialistas ressaltem que os agonistas de GLP-1 representem um avanço no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, com benefícios já observados no controle metabólico, cardiovascular e até renal, eles alertam que o uso exige acompanhamento individualizado e monitoramento contínuo.
"Grande parte dos riscos vem da automedicação e do uso estético indiscriminado", pondera a nutricionista Simone Fiebrantz Pinto, membro do conselho consultivo da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) .
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Segundo o Plano de Farmacovigilância Ativa apresentado pela Anvisa, houve um "crescimento relevante" das notificações nos últimos anos, com maior concentração em medicamentos à base de semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida.
Os eventos relatados incluem desde náuseas, vômitos e diarreia até efeitos adversos mais graves, como pancreatite, obstrução intestinal, hipoglicemia grave, colelitíase, risco de aspiração pulmonar em cirurgias, e até mesmo fadiga generalizada, experiência de morte iminente e um tipo raro de perda visual súbita.
A estratégia de detecção precoce da Anvisa será feita em parceria com hospitais da Rede Sentinela, Hospitais Universitários Federais (Rede HUBrasil) e outros com experiência em vigilância e segurança do paciente que possam mapear as notificações.
Além dos medicamentos registrados vendidos legalmente nas farmácias, a Anvisa quer identificar também os efeitos adversos causados por produtos manipulados ou com suspeita de falsificação ou procedência desconhecida. O registro e a notificação será integrada à plataforma de monitoramento VigiMed, do Ministério da Saúde, com indicação para atualização de bulas.
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Efeitos adversos apontados por especialistas
Para além dos efeitos mencionados na apresentação do órgão federal, a reportagem do VIVA consultou informações enviadas por profissionais de diversas áreas da saúde, incluindo médicos, dentistas, nutricionistas e psicólogos, para entender os possíveis efeitos adversos associados ao uso desses medicamentos, sobretudo quando utilizados sem supervisão adequada.
Entre os relatos, estão alterações como mau hálito, perda de massa muscular, flacidez na pele, impactos emocionais e até mesmo declínio funcional em pessoas idosas. Os especialistas reforçam, no entanto, que se bem indicadas e acompanhadas, as medicações podem trazer benefícios importantes no tratamento da obesidade e de doenças associadas. Confira a seguir:
1) Pancreatite
Recentemente, a Anvisa emitiu alerta sobre o uso das canetas emagrecedoras Ozempic, Mounjaro e Wegovy, devido ao aumento das notificações de casos de pancreatite. Segundo a agência reguladora, a pancreatite é um evento adverso raro associado a medicamentos agonistas do GLP-1, mas já conhecido e acompanhado por sistemas de farmacovigilância.
Os sintomas envolvem dor abdominal intensa e persistente, náuseas e vômitos, e reforça que a medicação deve ser suspensa e avaliada caso haja suspeita clínica.
Para a hepatologista Patrícia Almeida, doutora pela Universidade de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia, apesar da relação com os medicamentos, a pancreatite é uma condição multifatorial e o debate precisa levar em conta todo o contexto clínico do paciente.
"As causas mais comuns de pancreatite aguda continuam sendo os cálculos biliares e o consumo de álcool. Alterações metabólicas, uso de outras medicações e fatores alimentares também fazem parte desse cenário. Simplificar a discussão atribuindo a inflamação pancreática exclusivamente às canetas ignora esse conhecimento já consolidado."
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Ela chama atenção para dois fatores de risco relevantes que aparecem com frequência nos atendimentos clínicos: o uso de medicações fora do circuito regulatório e a perda de peso acelerada sem acompanhamento.
"Produtos adquiridos de forma irregular, fórmulas manipuladas sem controle adequado ou erros de dosagem representam um risco real. Além disso, a perda de peso rápida, independentemente do método, aumenta o risco de formação de cálculos biliares, que são a principal causa de pancreatite no mundo."
Apesar do risco baixo para pancreatite, ela recomenda critério, avaliação individualizada e acompanhamento médico, especialmente em pacientes com histórico de doença biliar, consumo elevado de álcool ou episódios prévios de pancreatite.
Medicamentos não são vilões nem soluções milagrosas. São ferramentas terapêuticas eficazes quando bem indicadas, monitoradas e usadas com responsabilidade".
2) Declínio funcional após os 60 anos
No que diz respeito a pessoas que já passaram dos 60 anos de idade, a nutricionista Simone Fiebrantz Pinto, da SBGG, diz que o uso das canetas emagrecedoras exige atenção especial de médicos e nutricionistas. Isso porque nesse grupo há um maior risco de perda de massa muscular, desnutrição e quedas.
Ela explica que o envelhecimento já provoca naturalmente redução de massa e força muscular, quadro que pode ser agravado pelo uso inadequado dos agonistas de GLP-1. Somado à diminuição do apetite provocada pelos medicamentos pode comprometer ainda mais a ingestão de proteínas e líquidos em pessoas idosas.
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"O idoso já tem uma saciedade muito precoce e, com o uso da caneta, isso se intensifica. O risco é a pessoa não conseguir consumir a quantidade de proteína que precisa", explica.
Ela afirma que a perda muscular associada ao envelhecimento pode evoluir para sarcopenia, condição marcada pela redução da massa e da funcionalidade dos músculos. Em alguns casos, também há aumento do risco de osteosarcopenia, associação entre sarcopenia e fragilidade óssea.
Quando a pessoa idosa usa um inibidor de GLP-1 sem adequação calórica e proteica, esse quadro pode se agravar".
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A especialista ressalta ainda que a baixa ingestão de líquidos representa outro ponto de atenção. "O idoso já tem redução da sensação de sede. Com a saciedade aumentada pela medicação, muitas vezes ele também não consegue ingerir a quantidade de água necessária, o que aumenta risco de desidratação e até comprometimento renal", afirma.
Na prática clínica, a especialista relata casos de idosos que utilizaram os medicamentos sem supervisão adequada e desenvolveram perda importante de massa muscular, além de quedas e fraturas. Por outro lado, ela destaca que o tratamento pode trazer benefícios relevantes quando há acompanhamento multidisciplinar.
"Usando com acompanhamento médico, nutricional e associado à atividade física, é uma medicação excelente. O problema é o uso sem supervisão".
Entre as estratégias recomendadas estão monitoramento da composição corporal, adequação da ingestão proteica, hidratação regular e exercícios de resistência, como musculação, pilates e hidroginástica. "O importante é que o tratamento seja individualizado e acompanhado de perto para evitar prejuízos funcionais no envelhecimento", conclui.
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3) Mau hálito
De acordo com a cirurgiã-dentista Bruna Conde, membro da Associação Brasileira de Halitose (ABHA), o mau hálito em pessoas que utilizam medicamentos injetáveis para emagrecer, como os análogos de GLP-1, costuma estar relacionado principalmente à redução da ingestão alimentar, ao maior intervalo entre as refeições e à alteração do metabolismo.
Ela diz que quando o organismo passa a utilizar gordura como fonte de energia, há produção de corpos cetônicos, substâncias que podem provocar um odor mais forte e característico no hálito. Além disso, náuseas, refluxo, boca seca e diminuição da salivação, efeitos que podem ocorrer com esses medicamentos, também favorecem a proliferação de bactérias na cavidade oral e contribuem para o problema.
Esse é um sintoma relativamente comum observado na odontologia, especialmente em pacientes que passam por mudanças bruscas na alimentação, emagrecimento acelerado ou uso de medicamentos que interferem na salivação e no funcionamento gastrointestinal."
Conde explica que o efeito também pode ocorrer em outros processos de emagrecimento, como jejum intermitente, dietas cetogênicas ou restrições calóricas intensas. "No entanto, em usuários de medicamentos injetáveis, o quadro pode se tornar mais perceptível devido à combinação entre redução importante do apetite, menor frequência alimentar, possível desidratação e efeitos gastrointestinais associados ao tratamento."
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Para minimizar o problema, ela recomenda cuidados como manter boa hidratação ao longo do dia, evitar longos períodos sem comer, reforçar a higiene bucal e estimular a produção de saliva com orientação profissional. "É importante realizar testes de saliva antes da medicação pois, se tiver boca seca, deverá tratar antes. Além disso é preciso saber se já tem saburra na língua, para higienizar e não prejudicar o odor e acúmulo", completa.
4) Perda de massa muscular e saúde óssea
O uso das canetas emagrecedoras também ampliou o debate sobre os impactos do emagrecimento acelerado na massa muscular e na saúde óssea, e não apenas em pessoas acima de 60 anos, mas em todos os grupos.
Segundo o ortopedista Marcelo Ruck, da Santa Casa de Mauá, a perda de peso provocada por essas terapias pode envolver não apenas gordura corporal, mas também massa magra. "Em muitos casos, a perda de massa magra acaba impactando a estabilidade do corpo, o que se reflete em maior sobrecarga articular e queixas de dor", explica.
A redução muscular pode alterar a distribuição de cargas no organismo, favorecendo desconfortos em articulações como joelhos e coluna, além de aumentar o risco de tendinites e alterações posturais. O emagrecimento rápido também pode reduzir a densidade óssea, sobretudo quando há ingestão insuficiente de nutrientes.
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Ruck destaca que a diminuição do apetite pode comprometer a ingestão de vitaminas e minerais importantes, como a vitamina B12, cuja deficiência está associada a sintomas neurológicos, incluindo formigamento e dormência.
A endocrinologista Mayra Macena, membro da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO), pondera, porém, que os medicamentos em si não demonstram efeito negativo direto sobre os ossos. Segundo ela, alguns estudos apontam até aumento da formação óssea e redução da reabsorção. "O ponto de atenção está na perda de peso acelerada e na baixa ingestão de nutrientes, especialmente cálcio, afirma.
Os especialistas reforçam que o tratamento deve incluir acompanhamento multidisciplinar, alimentação adequada e prática regular de exercícios físicos, especialmente treinos de força, para preservar massa muscular, reduzir impactos articulares e minimizar riscos ao longo do emagrecimento.
5) Reganho de peso
Embora medicamentos como Ozempic e Mounjaro tenham transformado o manejo clínico da doença, especialistas alertam que o emagrecimento sustentável depende de fatores que vão além da medicação.
Segundo a endocrinologista Suelem Izumi Lima, professora de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB), existe uma grande variabilidade individual na resposta a esses medicamntos.
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"Alguns pacientes conseguem perder peso com mais facilidade, enquanto outros apresentam maior dificuldade, mesmo utilizando as mesmas medicações", afirma, e explica que fatores genéticos, metabólicos e comportamentais influenciam diretamente os resultados.
O fator genético pode explicar de 40% a 70% da variação do peso corporal. Quando essa predisposição se combina com fatores ambientais, como alimentação inadequada e sedentarismo, há maior risco de ganho de peso".
Além disso, o próprio organismo tende a reagir à perda de peso. "Quando a pessoa emagrece, o cérebro ativa mecanismos de defesa para preservar energia, o que pode reduzir o ritmo da perda e até favorecer o reganho", completa.
A especialista reforça que o tratamento da obesidade deve ser individualizado e associado a mudanças no estilo de vida, incluindo alimentação equilibrada, atividade física regular e sono adequado. Em casos de resposta insuficiente, também podem ser necessários ajustes de dose, investigação hormonal e suporte multidisciplinar.
"A obesidade não tem solução imediata. É uma condição crônica, progressiva e com tendência à recorrência. Por isso, o acompanhamento contínuo é essencial".
6) Alterações na percepção corporal
A popularização das canetas emagrecedoras também tem levantado discussões sobre saúde mental, percepção corporal e os impactos emocionais do emagrecimento acelerado.
Em março de 2024, um estudo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, analisou dados de mais de 160 mil pacientes nos Estados Unidos e identificou associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e maior incidência de desfechos psiquiátricos, como depressão, ansiedade e ideação suicida. Os autores destacam que os dados não estabelecem relação causal direta, mas reforçam a necessidade de acompanhamento psicológico durante o tratamento.
Na prática clínica, a psicóloga Maria Klien afirma observar um aumento de pacientes com dificuldade de reconhecer a própria imagem corporal após o emagrecimento acelerado.
As canetas estão sequestrando nossa identidade [...] as pessoas passam a se reconhecer apenas pelo tamanho do próprio corpo, como se toda a existência fosse reduzida a essa métrica".
Segundo ela, o emagrecimento rápido sem suporte emocional pode potencializar sofrimentos psíquicos já existentes, e defende que tratamentos que provocam mudanças intensas no peso corporal incluam avaliação psicológica sistemática.
"A medicação não cria o sofrimento, mas pode amplificar aquilo que já estava presente e sem espaço de escuta", completa.
7) Flacidez e alterações na pele
O emagrecimento acelerado associado ao uso das canetas emagrecedoras também pode provocar alterações na aparência e na qualidade da pele, especialmente no rosto. Entre os efeitos mais relatados estão flacidez, perda de viço, aspecto murcho e redução da elasticidade.
Segundo a dermaticista e cosmetóloga Patrícia Elias, o quadro tem sido observado com frequência em pacientes que passam por emagrecimento acelerado. "Quando o emagrecimento acontece de forma muito rápida, há uma redução importante do tecido adiposo que sustentava a pele. Sem esse suporte, é comum observar flacidez e perda de viço, principalmente na região do rosto", explica.
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Ela afirma que cuidados diários podem ajudar na recuperação da qualidade da pele, incluindo hidratação adequada e uso de ativos regeneradores. "Fórmulas com ácido hialurônico, vitamina C, retinol, peptídeos e niacinamida atuam na hidratação, na luminosidade, na renovação celular e na melhora da firmeza", destaca.
Patrícia Elias também cita protocolos estéticos que estimulam a produção de colágeno e elastina, como radiofrequência, LED, criofrequência e peelings. "Combinando tecnologias e cuidados contínuos, conseguimos melhorar a textura, a firmeza e devolver um aspecto mais saudável à pele", afirma.
8) Alterações na voz
O uso das canetas emagrecedoras também pode provocar alterações vocais, especialmente em pessoas com predisposição ao refluxo gastroesofágico ou que utilizam a voz de forma intensa no trabalho. De acordo com a fonoaudióloga especialista em performance vocal Juscelina Kubitscheck, a sensação prolongada de estômago cheio favorece esse problema.
As alterações mais comuns apresentadas por pessoas que fazem uso de canetas emagrecedoras relacionadas à voz, normalmente são queixas de pigarro constante, falha na voz quando fazem uso por mais tempo, rouquidão, sensação de ardência na região da garganta e sensação de fadiga vocal."
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Ela explica que o refluxo pode atingir diretamente a região das pregas vocais e piorar os sintomas. "Pode acontecer desse ácido do estômago subir até a região de pregas vocais e trazer consequências como rouquidão, pigarro e o paciente pode até sentir essa ardência na região das pregas vocais."
"As alterações mais comuns apresentadas por pessoas que fazem uso de canetas emagrecedoras relacionadas à voz, normalmente são queixas de pigarro constante, falha na voz quando fazem uso da voz por mais tempo, rouquidão, sensação de ardência na região da garganta e sensação de fadiga vocal."
A especialista ressalta que o problema não ocorre com todos os usuários, mas pode ser mais frequente em pessoas predispostas e em casos de emagrecimento acelerado. "Os profissionais da voz devem ficar ainda mais atentos, devido ao uso intenso da voz associado ao fator emagrecimento", alerta.
Ela afirma ainda que a perda excessiva de massa muscular pode impactar diretamente a qualidade vocal. "As pregas vocais são formadas também por músculo. Então, se a pessoa tiver perda de massa muscular, principalmente se isso acontecer de forma muito abrupta, ela vai sentir essa perda também na qualidade da voz."
Para minimizar os impactos, a especialista recomenda medidas voltadas ao controle do refluxo, além de cuidados de hidratação e higiene vocal. "Evitar alimentar-se pelo menos duas horas antes de deitar, elevar a cabeceira da cama, reduzir o consumo de café, refrigerante, alimentos ácidos, frituras, fazer a hidratação constante das pregas vocais" afirma, e orienta:
Rouquidão por mais de 15 dias não é normal, tem que procurar ajuda de um médico otorrinolaringologista e preferencialmente de um fonoaudiólogo especialista em voz."
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