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Sobrepeso atinge 30% das crianças brasileiras em vulnerabilidade

Rovena Rosa/Agência Brasil

Cerca de 30% das crianças brasileiras em situação de vulnerabilidade apresentam sobrepeso - Rovena Rosa/Agência Brasil
Cerca de 30% das crianças brasileiras em situação de vulnerabilidade apresentam sobrepeso
Por Bianca Bibiano

19/02/2026 | 11h01

São Paulo, 19/02/2026 - Para além dos diversos prejuízos da vulnerabilidade social que afetam as crianças brasileiras, um novo estudo mostra que 30% delas também sofrem de sobrepeso. 

A investigação analisou dados de 6 milhões de crianças de 0 a 9 anos de idade registradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional e no Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos. Foram consideradas informações como idade, altura, peso e índice de massa corporal.

A pesquisa foi conduzida pelo Grupo de Estudos em Nutrição e Ambiente com apoio do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e publicada este ano no periódico internacional JAMA Pediatrics.

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Crescimento abaixo do ideal

O principal resultado do estudo indica que, em algumas regiões, as crianças brasileiras estão crescendo em um padrão abaixo do ideal considerado pela Organização Mundial de Saúde. O problema é mais grave entre crianças indígenas, que não apresentaram o crescimento linear previsto e permaneceram abaixo da altura média adequada até os 9 anos de idade.

"Este problema de crescimento começa ainda na infância e pode se tornar permanente, já que as crianças não conseguem uma recuperação. Nas crianças indígenas este é um fator associado a privação crônica, desigualdade e desenvolvimento social, condições precárias de vida e saúde, determinantes sociais históricos e insegurança alimentar", afirmou o líder do estudo Gustavo Velasquez em nota do Cidacs/Fiocruz Bahia.

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Excesso de peso em contexto de vulnerabilidade

Ao mesmo tempo, o levantamento revela um cenário paradoxal. Enquanto uma parcela tem dificuldades para crescer adequadamente, cerca de 30% das crianças brasileiras em situação de vulnerabilidade apresentam sobrepeso, atingindo tanto meninas quanto meninos. Aproximadamente 7% delas já apresentam obesidade.

Segundo os pesquisadores, há padrões regionais e etnoraciais relevantes, com disparidades que podem ter implicações significativas para políticas públicas de saúde e nutrição. As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram estados com maior prevalência de sobrepeso e obesidade, cenário também observado em alguns estados do Nordeste.

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O quadro reflete uma transição nutricional na qual desnutrição e excesso de peso coexistem, especialmente em áreas mais urbanizadas e economicamente desenvolvidas, impulsionadas por mudanças no padrão alimentar, maior consumo de ultraprocessados e estilo de vida sedentário.

Disparidades entre populações indígenas

Os resultados corroboram estudos anteriores que apontaram melhorias nos indicadores de crescimento infantil nas últimas décadas, possivelmente associadas a políticas sociais e de saúde implementadas no período.

No entanto, o aumento constante nos escores de peso para idade e índice de massa corporal para idade indica a necessidade de intervenções direcionadas para prevenir o sobrepeso e a obesidade, especialmente em alguns estados da região Sul.

O estudo também confirma que crianças de mães indígenas apresentaram, em média, estatura 3,3 centímetros menor em comparação com crianças de mães brancas.

A pesquisa cita dados do Ministério da Saúde mostrando que os piores indicadores nutricionais nas populações indígenas concentram-se na região Norte, com altos percentuais de peso muito baixo e baixo, além de resultados mais críticos para altura em relação à idade.

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Para os autores, a interrupção do crescimento entre crianças indígenas é resultado de uma combinação de determinantes ambientais, culturais e sistêmicos que vão além da desvantagem socioeconômica. O acesso limitado a serviços de saúde de qualidade, água potável segura e saneamento adequado contribui para desnutrição crônica e infecções recorrentes.

Fatores culturais ligados à alimentação infantil, disponibilidade de alimentos tradicionais, discriminação sistêmica e marginalização histórica também reforçam desigualdades, restringindo oportunidades e perpetuando ciclos de pobreza e piores desfechos em saúde.

Impactos na saúde e no desenvolvimento

O ganho excessivo de peso está associado a condições desfavoráveis na infância, maior risco de doenças crônicas na vida adulta e aumento da mortalidade precoce, dizem os pesquisadores. Além disso, doenças como asma e deficiências nutricionais também foram relacionadas ao excesso de peso.

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Além dos impactos físicos, a restrição de crescimento foi associada a infecções recorrentes e a menor desempenho escolar e cognitivo. O estudo pondera que isso acontece porque o desenvolvimento cerebral depende diretamente da ingestão adequada de nutrientes como proteína, ferro e zinco, essenciais para evitar danos irreversíveis à estrutura e à função cerebral.

Desafios para políticas públicas

O grupo reconhece que há iniciativas no Brasil voltadas à ampliação do acesso da população indígena aos serviços de saúde, com destaque para a atenção primária. Ainda assim, avalia que o aumento do sobrepeso e da obesidade infantil é preocupante, sendo observado também na Argentina e em outros países da América Latina.

Os pesquisadores alertam que há grandes desafios na implementação de políticas públicas para enfrentar ameaças à alimentação saudável, incluindo restrições à publicidade de alimentos não saudáveis, além de questões relacionadas à acessibilidade e ao custo de alimentos nutritivos.

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"Crianças que crescem em contextos de vulnerabilidade não estão protegidas do excesso de peso e, ao mesmo tempo, estão expostas a fatores que comprometem o crescimento saudável", afirmou a coautora do estudo e pesquisadora associada ao Cidacs, Carolina Santiago.

Diante desse cenário, a pesquisa reforça a necessidade de políticas integradas de saúde e nutrição infantil que enfrentem simultaneamente a restrição de crescimento e o risco emergente de sobrepeso e obesidade.

As recomendações incluem ampliar o acesso a água potável, saneamento e cuidados de saúde, além de implementar intervenções preventivas desde o pré-natal, com atenção especial aos primeiros dois anos de vida e promoção de alimentação saudável ao longo da infância, especialmente em comunidades indígenas e populações socialmente vulneráveis.

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