Projeto cria IA brasileira para diagnosticar doenças de pele negligenciadas
Feita em parceria entre SUS e Einstein, ferramenta parte da diversidade da pele brasileira para identificar lesões e doenças como hanseníase e leishmaniose
Por Bianca Bibiano
05/11/2026 | 10h51Freepik
O Ministério da Saúde e o Einstein Hospital Israelita lançaram a CUTIS-AI, uma inteligência artificial destinada a auxiliar a triagem de doenças de pele negligenciadas no Sistema Único de Saúde (SUS), impactando diretamente a detecção e tratamento dessas condições no Brasil.
O projeto analisou mais de 1.400 pacientes em 10 estados, coletando dados sobre 111 manifestações cutâneas e refletindo a diversidade étnica e social da população atendida pelo SUS, com 79% dos participantes apresentando peles morenas ou negras.
A próxima fase do projeto, prevista para 2026, envolverá a validação da tecnologia em condições reais de uso, com o objetivo de avaliar sua eficácia e facilitar a regularização junto à Anvisa, além da transferência definitiva da tecnologia ao Ministério da Saúde até dezembro deste ano.
São Paulo - O Ministério da Saúde e o Einstein Hospital Israelita anunciam em parceria uma inteligência artificial para apoiar profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é ajudar na triagem e identificação de doenças de pele negligenciadas, como esporotricose, leishmaniose cutânea, hanseníase, cromoblastomicose, lobomicose, tuberculose cutânea, além de lesões decorrentes de acidentes com picada de aranha marrom.
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A iniciativa, chamada CUTIS-AI, utiliza como base imagens da lesão da pele do paciente e dados clínicos, epidemiológicos e sociodemográficos que refletem a realidade brasileira. ferramenta apoiará profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) na triagem rápida de doenças negligenciadas.
O projeto foi executado no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), no qual hospitais privados atuam em colaboração com o sistema público para desenvolver novas tecnologias de saúde.
Até o momento, a iniciativa investigou mais de 1.400 pacientes em 10 Estados, mapeando cerca de 111 manifestações cutâneas. Entre os participantes, 79% possuem peles morenas (fototipos III a V) ou negras (fototipo VI), refletindo com exatidão a demografia dos usuários do SUS.
Segundo informações divulgadas pelo Einstein, até o momento foram analisadas mais de quatro mil imagens. Desse total, 2.996 (74%) correspondem às sete doenças-alvo da pesquisa, com a seguinte distribuição:
- acidentes loxoscélicos, 1.150 casos (38,4%)
- hanseníase, 616 casos (20,6%)
- leishmaniose cutânea, 577 casos (19,3%)
- esporotricose, 481 casos (16,1%)
- cromoblastomicose, 90 casos (3,0%)
- tuberculose cutânea, 42 casos (1,4%)
- lobomicose, 40 casos (1,3%)
Os demais 1.052 registros (26%) foram classificados como diagnósticos diferenciais, distribuídos entre 104 condições distintas. Os mais frequentes foram carcinoma basocelular, psoríase, vitiligo, queratose seborreica, úlcera venosa de estase e carcinoma espinocelular.
Base de dados parte da diversidade brasileira
Ao contrário da maioria das soluções desenvolvidas no exterior, treinadas majoritariamente a partir de populações de pele clara do Hemisfério Norte, a plataforma CUTIS-AI foi construída integralmente sobre a diversidade clínica e étnica do Brasil.
Além das doenças mencionadas acima, a base reúne também informações sobre acesso à água tratada, rede de esgoto, contato com plantas, espinhos ou galhos, contato direto com felinos, entre outras variáveis. Nesse sentido, o levantamento identificou que 19% das pessoas analisadas não tinham acesso à água tratada na residência.
“Quando falamos em inteligência artificial aplicada à saúde, a qualidade e a diversidade dos dados são fundamentais. Uma tecnologia desenvolvida a partir de uma população específica pode não apresentar o mesmo desempenho quando aplicada a outros grupos. Por isso, construir uma base brasileira, com diferentes fototipos de pele, regiões, condições de vida e perfis epidemiológicos é essencial para a entrega de uma solução que esteja conectada à realidade da população que utiliza o SUS”, afirmou no comunicado o Secretário de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde Fabiano Geraldo Pimenta Junior.
Aplicativo funciona também offline
O aplicativo que viabiliza o uso da IA foi desenvolvido a partir de entrevistas com profissionais de saúde da atenção básica e compreensão das suas necessidades. Uma das principais características da ferramenta é o funcionamento offline, permitindo seu uso mesmo em locais com acesso limitado ou sem internet. Quando há conexão disponível, os dados podem ser enviados a um servidor central, possibilitando a construção de painéis para acompanhamento das condições identificadas e apoio ao monitoramento epidemiológico.
A próxima etapa do projeto será validar a tecnologia de volta nos centros colaboradores para testagem em condições reais de uso. Previsto para ocorrer entre outubro e novembro de 2026, o estudo permitirá avaliar o desempenho da inteligência artificial e a experiência dos profissionais de saúde com o aplicativo na prática assistencial.
Os resultados dessa etapa deverão subsidiar o processo de regularização da tecnologia junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A transferência definitiva da tecnologia ao Ministério da Saúde está programada para dezembro deste ano.
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